De volta a Salta e revendo Buenos Aires

Depois do encantamento por Purmamarca não tivemos mais a menor vontade de ficar em Tilcara e resolvemos voltar para Salta antes do previsto.

Devo dizer que a altitude também não me fez muito bem. Eram apenas 2.600 metros acima do nível do mar, mas andar 3 quarteirões me deixava com a respiração ofegante e o coração num baticum terrível. Então, voltamos também por conta desses problemas. Mas voltar a Salta foi um alívio. Não só pela altitude mais normal (apenas 1.200 metros), mas porque tínhamos um clima muito mais agradável, não só na cidade mas, e sobretudo, no gracinha do B&B Cuatro Lunas, onde já nos sentíamos em nossa própria casa. 

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Living do Cuatro Lunas
Living do Cuatro Lunas

Ainda deu tempo visitar o Museu de Arqueologia da Alta Montanha, que nos conta a história dos povos andinos, basicamente os incas, com seus costumes, organização da sociedade e tecnologia impecável na construção de estradas. Mas a grande atração do Museu é mesmo, como falei antes, as crianças encontradas a 6 mil metros de altura, no vulcão Llullaiallaco e conhecer todo o ritual mágico que levava a esses sacrifícios humanos, embora não fosse tido como sacrifício, mas uma passagem para outro mundo. Não foi possível fazer fotos, mas o site é: http://www.maam.gob.ar/

Dois dias depois tomamos nosso vôo para Buenos Aires, iniciando nossa viagem de volta. Claro que Baires não é nenhuma novidade para nós e detestamos identifica-la unicamente com tangos e Florida. Fizemos nossas comprinhas na Santa Fé, comemos bem, tomamos mais vinhos e revimos o grande amigo Ismael, com que tivemos uma verdadeira aula de história da America do Sul.

E assim ricas, voltamos pro Brasil.

Purmamarca, o mais lindo de Jujuy

Depois da decepção de Tilcara, seguimos o planejado e fomos a Purmamarca. São apenas 12 km até a entrada da estrada que leva até la, o que significa mais uns poucos quilômetros. E ai, depois de uma das suaves curvas, voce tem que parar porque a paisagem é de tirar o fôlego (não fossemos já estarmos a mais de 2.000 metros de altura). Uma das coisas mais deslumbrantes que já vi na vida: a sua frente, ao longe, se descortina um conjunto de montanhas listradas, coloridas, com a moldura de um céu absurdamente azul. Para mim, só essa visão já me pagou a viagem.

Los colorados
Los colorados

Entramos no pueblo, que tal qual Tilcara quase não tem ruas calçadas. A diferença é que Purmamarca é colorida. Não as casas, mas o entorno da pracinha. Existem árvores, as lojas de artesanatos são muitas e algumas com coisas de muita qualidade e muitos e bons restaurantes. Existem bons e caros hoteis (vimos um que tinha diária de 800 reais), alem dos hostais e hoteis mais simples. É uma cidadezinha acolhedora, que nos deu vontade de ficar por ali vendo a lua nascer nas montanhas.

Pracinha
Pracinha
Igrejinha
Igrejinha

Comemos em um restaurante cuja dona é cantoautora, uma palavra que não conhecia, mas que é perfeita para o que quer designar. Chama-se Claudia Vilte. No seu restaurante ela promete música 365 dias por ano, a partir das 21 horas. E ai, nesse restaurante, devo confessar uma coisa que fiz e que me causa vergonha até agora: comi um assado de llama 😦  Podem me xingar, mas a carne é muito macia e gostosa. Que horror!

Essa é um algarroba de mais de 700 anos
Essa é um algarroba de mais de 700 anos

A conclusão é: se voce for a Jujuy, não precisa ir até Tilcara, fique em Purmamarca, uma cidade muito mais bonita e acolhedora. Lamentamos muito não termos feito isso.

Os cardones ou cactos gigantes

Por todos os lados que andamos encontramos cactos semelhantes aos que temos no Nordeste brasileiro, só que muito mais altos (vimos alguns com mais de 3 metros de altura) e com maiores circunferências. Aqui são chamados “cardones”. Passeando pelas lojinhas de artesanatos ainda em Salta, comecei a observar objetos de um tipo de madeira que, apesar de dura, apresentava uns espaços abertos, como se tivessem feito uns furos oblongos. Eram caixinhas, molduras para quadros, depósitos para levar o mate. Curiosa, perguntamos a uma senhora que madeira era aquela tão interessante. E ela nos disse: cardones. Mais uma vez, cara de espanto. Então aquelas plantas “suculentas” se transformavam em uma madeira assim tão dura? Foi uma surpresa.

Cardones
Cardones

Não soube exatamente qual o processo de endurecimento, se se dá no envelhecimento da planta ou se ela é submetida a algum procedimento especial. O fato é que vimos exemplares ainda no solo e já totalmente ressecados.

Cardone já seco
Cardone já seco

E vimos que a madeira não é usada somente para objetos decorativos, mas também em construções. A igreja católica de Tilcara tem o madeirame de seu teto em tabuas de cardone, o púlpito é em cardone e até o painel onde está o Cristo crucificado. Pena que os objetos sejam tão mal acabados e sem originalidade. Acho que, do ponto de vista do artesanato, o cardone ainda é um material a ser descoberto criativamente.

Púlpito
Púlpito
teto
Os caibros são de outra madeira, mas as ripas do teto são de cardone
Painel do altar
Painel do altar

Tilcara, nosso ponto mais ao norte

Depois de um pernoite no meio do caminho, em um charmoso hotel na beira da Rota 9 (“Posta de Lozano”), renovadas, seguimos viagem rumo a Tilcara. Não entramos em San Salvador de Jujuy, as informações que tínhamos nos diziam que não valia a pena.

No caminho para Tilcara tínhamos a referência do pueblo de Purmamarca, mas preferimos ficar 3 dias em Tilcara e de lá faríamos o recorrido pelos arredores. Tomamos essa decisão porque havíamos lido em um blog de viagem de uma brasileira que vive em Buenos Aires, que Tilcara era linda, que tinha restaurantes “fusions”(seja lá o que isso signifique), cafés, musica ao vivo e até poderíamos ouvir Billie Holiday em bares. Terminava dizendo que Tilcara era o Soho do norte da Argentina. Claro que uma descrição dessas nos encheu de vontade de fazer de lá a nossa base.

Chegamos umas 11 horas da manhã, deixamos as malas no hotel e saimos para dar um giro na cidade e almoço. E ai é o seguinte: a cidade é ocre, toda ocre, porque há uma eterna poeira subindo. A maioria das ruas não são calçadas, de modo que cada carro que passa levanta mais poeira. As casas são rústicas, sem graça e ocres, com calçadas ocres. Nas ruas corre esgotos a céu aberto. Na praça principal uma feira de artesanato está sempre montada em barracas cobertas de plástico e armação de tubos de ferro, vendendo coisas não originais (encontramos coisas chinesas até). Ao redor da praça vimos 3 restaurantes bastante simples e em apenas um deles havia música ao vivo. Não vimos um só café.

Rua de Tilcara

Mas a pior coisa mesmo é a altitude (2.600 metros), que nos deixou com o coração disparando por qualquer mínimo esforço que fazíamos, e o ar tão extremamente seco que todo hidratante que passávamos no corpo desaparecia em segundos. Não fez calor, mas o sol era inclemente, deixando os locais fechados com uma sensação opressiva de abafado.

No dia que chegamos havia uma festividade na praça lembrando o “outubro rosa” que também temos no Brasil. Umas senhoras maduras com roupas típicas dançando ritmos típicos. Todo mundo achando muito engraçadinho como as velhotas dançavam. Eu particularmente não gosto desse tipo de exposição.

Comemoração do Outubro Rosa
Comemoração do Outubro Rosa

Assim que, ou há uma outra Tilcara escondida nas montanhas que parece com o Soho, ou eu não sei o que é o Soho, porque o que vimos foi uma cidadezinha pobre em atrativos, com uma gastronomia precária e artesanias comuns e pouco inspiradas.

Seguindo para Jujuy, em busca da Rota 9

Planejamos sair de Cafayate rumo a Tilcara, na provincia de Jujuy, ao norte de Salta. Isso nos fazia ter 180 km até Salta e outros 170 km até Tilcara,  e chegarmos quase na fronteira com a Bolívia. Pé na estrada, de manhã cedinho, tendo outra visão da Quebrada das Conchas ao amanhecer. Não sei dizer que horário ela é mais linda, tanto que tinhamos pensado em ir mais rápido, mas não resistimos e paramos algumas vezes, em uma delas para cumprimentarmos as llamas que vieram se exibir pra gente.

Quebrada das Conchas ao amanhecer

Sabíamos que tínhamos que tomar a Rota 9 e que Salta estaria no meio do caminho, mas imaginávamos que haveria uma maneira de passar por fora, sem entrar na cidade. Perguntamos a um policial que nos parou na estrada, e ele nos indicou um determinado caminho que, de qualquer maneira, passava por dentro da cidade, mas num percurso que já conhecíamos. Fomos. Felizes por estarmos na Rota 9.

Depois de mais de meia hora de estrada (com um pedágio no meio) avistamos uma placa enorme dizendo: a direita Rota 9 e Tucuman, a esquerda Jujuy. Ora, sabiamos que Tucuman é ao sul de Salta, então não podiamos seguir por ali. Tomamos a esquerda, imaginando que retornaríamos a Rota 9 em algum momento porque havíamos planejado almoçar em El Carmem, que fica justo nessa Rota. E fomos. Lá adiante percebemos que estávamos na Rota 34. E fomos indo.

Depois de rodarmos um monte de quilômetros finalmente entramos na província de Jujuy. No posto policial paramos e perguntamos se estávamos no caminho certo e quando iríamos encontrar a bendita Rota 9. Ele nos diz: “essa é a Rota 9, é a 34 mas tambem é a 9”. Juro que se eu não entendesse o espanhol iria achar que ele tinha dito outra coisa. Sabe aquela carinha assim 😮 de espanto? Pois foi como ficamos. “E El Carmem?” Tinhamos que pegar um atalho e voltar. Outra vez 😮 . A informação era seguir pela 34 (9?), à esquerda tomar a 66 e seguir. Ou seja: a 9 ninguém sabia por onde andava.

Outro problema é que tínhamos uma reserva em um hotel que ficava na 9, e se nunca chegássemos a ela? Ó céus, ó vida, como diria o Dr. Smith. Mas, como ninguém discute com policial, seguimos. Passamos por San Salvador de Jujuy, a capital da província. De repente olhamos as marcações da estrada e lá estava RN9. E nós ó o/ .

O fato é: as estradas são ótimas, verdadeiros “tapetes”, muito bem sinalizadas com relação a segurança, mas quanto as direções é um horror. O melhor talvez seja comprar um mapa de “carreteiras”ou usar um bom GPS. Porque a Ruta Nacional 9 para nós continua um mistério.

A Rota 40 e o nosso sonho

A Ruta 40 liga a Argentina de norte a sul, indo da província de Jujuy fronteira com a Bolívia até o sul, quase na Patagônia. Quando estivemos por lá, particularmente em El Calafate, no falaram sobre ela, que era um rota mística porque meio que acompanhava os Andes. Naquele momento fizemos uma promessa de alugar um carro e fazer o percurso. E o sonho ficou guardado

E ai agora, no percurso para San Carlos e Cafayate, percorremos um trechinho dela. E nos demos conta que fazer o percurso todo exige umas condições que não vamos dispor: muito tempo para percorrer os seus mais de 5.200 km, condições físicas (que não temos) para os trechos que atinge mais de 5 mil metros de altitude e um homem pra acompanhar as donzelas por trechos tão desertos. Enfim, o sonho acabou.

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Nos arredores de Cafayate

Nos disseram que perto de Cafayate existiam vários pueblitos lindos e que deveríamos visitá-los. Anotamos Tolobom e San Carlos, o primeiro a 12 km e o segundo a 25. Fomos.

Escolhemos primeiro San Carlos. A informação que nos deram é que era um sítio histórico e que durante algum tempo se cogitou ser ele a capital da província. De fato é uma cidadezinha linda. Como nas outras, o ponto principal é a pracinha, onde está a igreja católica e o comercio. Existem algumas lojas de artesanatos, destacando-se a Cooperativa de artesãos, onde encontramos belos trabalhos de cestaria, como não havíamos visto em nenhum outro lugar. Pensávamos em almoçar por lá, mas não há restaurantes, apenas comedores muito simples ou lanchonetes. Rumamos para Tolobom.

Pracinha em San Carlos
Pracinha em San Carlos

Passamos novamente por Cafayate, cruzamos a cidade e tomamos o rumo sul. Alguns quilômetros adiante avistamos o que parecia uma cidade fantasma, desabitada. Na verdade não era mesmo uma cidade, mas uma praça feia, meio destruída, com uma igreja pequenina e algumas casas ao redor. Resolvemos seguir porque aquilo não podia ser Tolobom. Na frente encontramos um restaurante e paramos para comer. E lá perguntamos como chegavamos a Tolobom. E o cara, “aqui é Tolobom, voces já passaram pela cidade”. Olhamos uma pra outra, demos uma risada e voltamos pra Cafayate.

Restaurante, a unica coisa "viva" em Tolobom
Restaurante, a única coisa “viva” em Tolobom

Preciso ainda comentar que em Cafayate se come muitíssimo bem. Há um excelente restaurante, chamado Terruño, que serve uma comida muito boa, tem uma carta de vinhos de primeira e o preço é ótimo. Recomendadíssimo.

De Salta a Cafayate, em busca dos vinhos

Já tínhamos alugado um carro desde o Brasil, para percorrermos calmamente Salta e Jujuy, assim que fomos pega-lo no aeroporto de Salta e de lá rumamos para o sul, para Cafayate. São apenas pouco mais de 180 km, mas nem pense em percorre-los em menos de 4 a 5 horas. Porque a própria viagem já faz parte do passeio. Voce vai se deslumbrar tanto que será impossível passar sem parar algumas vezes.

Saindo de Salta, passamos por alguns “pueblos” que fazem parte da, digamos, grande Salta. Em Coronel Moldes paramos para almoçar em um lugar muito simpático chamado “Posta de las Cabras”, onde traçamos um cabrito ao torrontés. Estava assim mais ou menos. O gosto do torrontés não sentimos. Mas o lugar é legal. E é a última “civilização” antes de entrarmos nos 60 km da Quebrada das Conchas.

Igrejinha em Coronel Moldes

Um parêntesis para falar sobre quebradas. Essa é uma palavra para qual não encontramos consenso. Em uns lugares diz tratar-se de um rio raso e pouco caudaloso, em outro de um vale, em outro de um desfiladeiro. Conto o que vi: montanhas imensas de um lado e do outro, e no meio um riozinho raso tendo nas margens um espaço grande de pedras pequenas, como se fosse um vale. Em alguns lugares as montanhas se aproximam mais do rio, como de fosse um desfiladeiro. Então, para mim o significado de quebrada é a junção disso tudo.

Quebrada das Conchas
Quebrada das Conchas

A Quebrada das Conchas tem esse nome porque se encontrou conchas marinhas nas montanhas e há a hipótese de que o local tenha sido mar ou um imenso lago. E é uma coisa absolutamente majestosa. Para qualquer lado que se olhe, a beleza enche nossos olhos. Nela existem duas formações que é impossível se passar sem parar e visitá-las: a Garganta do Diabo e o Anfiteatro. São lugares especiais, onde percebemos o quanto somos nada diante da imensidão da Natureza.

Garganta do Diabo
Garganta do Diabo
Garganta do Diabo
Garganta do Diabo

 

 

Outra vista da Quebrada das Conchas
Anfiteatro e eu
Anfiteatro e eu

Depois de 60 km sem nenhum vilarejo e por uma estrada absolutamente sinuosa (cuide de olhar a gasolina ainda em Coronel Moldes porque depois só vai encontrar posto em Cafayate!), entra-se em um estrada mais reta e poucos quilometros depois chegamos a Cafayate.

Cafayate é um lugar pequenino, com uma graciosa praça, rodeada de restaurantes, lojinhas de artesanatos, a Igreja de N. S. do Rosário e a “Municipalidad”. O seu grande atrativo são as bodegas de vinho. Aqui, diferente do que vi em Sonoma, na California, não se precisa ir aos vinhedos para se ter degustação dos vinhos. Nas bodegas há degustações e são quase todas elas dentro da cidade, ou a alguns poucos metros. Vizinho ao nosso hotel tinha a bodega Nanni, que faz um vinho orgânico, tanto Malbec quanto Torrotés, maravilhoso. Do outro lado da rua estava a El Povenir. Visitamos a El Esterco e a Etchart, que ficam fora do centro. Provamos ainda vinhos artesanais, os chamados “vinhos butique”. Referencia especial ao vinhos brancos de colheita tardia, mais suaves, próprios para se tomar como aperitivo ou sobremesa, ou simplesmente bebe-lo bem frio em um final de tarde. O recomendado é acompanha-lo com damascos secos. É o must.

Essa é em homenagem a quem nunca mais veremos
Essa é em homenagem a quem nunca mais veremos

E quando estávamos de volta de Cafayate, paramos para ver passar essas coisinhas maravilhosamente fofas, que pousaram para nós.

Uma delas quase não nos deixa passar e por pouco não a colocamos no carro e levamos pra casa.

Eu gosto muito de cachorro vagabundo

Uma das coisas que mais nos tem chamado a atenção aqui por onde andamos é a quantidade de cachorros de rua (ou “perros callejeros”). São muitos mesmos, por onde que andemos. Mas, o que é mais ainda interessante é a maneira como as pessoas das cidades lidam com eles. Nunca vimos ninguém os enxotando ou mostrando aborrecimento por causa deles, ao contrário, o que observamos foi as pessoas fazendo carinho, dando comida, cuidando deles. Vimos, inclusive, alguns entrando nos restaurantes, passeando entre as mesas e indo embora, sem que ninguém os aborrecesse.

Bom, isso tudo para contar a nossa maravilhosa experiência com um desses cães lindos e livres. Estávamos nós postas em sossego na nossa pousada, tomando um vinho, filosofando sobre a vida e as relações (mulher quando se junta, pode ter certeza, está falando sobre “relação”), quando entra na sala um belo cão branco com manchas pretas, que vem para nós balançando o rabo, nos cheira e se põe a esperar carinho. O que, obviamente, fazemos de imediato. Pensávamos que era um cão da casa que havia sido solto à noite para proteção. E ai ficamos alisando seu lombo, coçando suas orelhas, dizendo coisas bobas de carinho. Quando chega a “chica” que ficava à noite na casa e nos diz que ele não é conhecido e que não tem idéia de como entrou porque tudo estava bem fechado. Imagina o quanto elocubramos sobre a entrada desse cachorro assim, de modo tão inusitado! Só podia ser um sinal! No entanto, tínhamos, que pô-lo pra fora, já que não era da casa. Por mais que o expulsássemos, ele não saia, até que o enganamos, fingindo que iamos sair e, plaft, fechamos a porta. Pense numa tristeza! Foi a que ficamos por ter enganado o tadinho.

nosso cachorro em Salta
nosso cachorro em Salta

Fomos dormir. No dia seguinte, ao sairmos para tomar café, quem encontramos dentro de casa outra vez, com todos tentando coloca-lo prá fora? Ele mesmo! Esperando por nós, claro! E ele nos seguiu o tempo todo em nosso percurso até o centro. Enxotou outros cachorros que ousaram se aproximar, entrou conosco no escritório de turismo onde fomos pegar informações, esperou por nós do lado de fora do lugar onde entramos para tomar um café, entrou conosco na casa de câmbio e deitou-se aos nossos pés enquanto cambiávamos. Era, enfim, nosso cachorro em Salta!

Fernando seguindo Dete
Fernando seguindo Dete

Até que tivemos que tomar um taxi para irmos ao Mercado de Artesanatos e o taxista não permitia que ele entrasse. Que dó ter que deixa-lo alí. Que tristeza ver que ele queria entrar no taxi e termos que o colocar pra fora.

Quando voltamos para casa ainda traziamos a esperança que o encontraríamos na calçada nos esperando. Nada. Nunca mais vimos Fernando, o nome que colocamos nele em homenagem a um nosso amigo muito querido.

 

Salta, o lindo noroeste argentino

Quando fomos à Patagônia, encontramos uma senhora argentina que nos sugeriu visitar o noroeste do país, as províncias de Salta e Jujuy, que seriam regiões muito bonitas e diferentes. Ficamos com aquilo na cabeça, fizemos outras viagens, mas não esquecemos da indicação. Agora viemos.

Nos estudos que fizemos sobre a região descobrimos que Salta é a nova Mendoza, ou seja, está se firmando como uma região produtora de excelentes vinhos, sobretudo da uva torrontés, originaria da Espanha mas muito bem adaptada ao clima salteño. Foi mais um incentivo, claro.

Chegamos a Salta (capital da província do mesmo nome) depois de uma viagem de 17 horas, desde Natal até São Paulo, de São Paulo até Buenos Aires e de Buenos Aires até Salta (pronuncie o “l”, não o transforme em “u”ou ninguém vai entender o que voce fala). Salta é conhecida como La Linda, é uma cidade de porte médio, com cerca de 600 mil habitantes, mas é muito tranquila e segura. Chegamos no Dia de La Raza e havia um desfile de estudantes, com bandas de música e muita pompa, bem em frente ao monumento do General Güemes, o herói nacional que nasceu aqui.

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O General Güemes, dá nome a quase tudo por lá e foi nossa referência o belo “Paseo Güemes”, pertinho de nosso hotel, onde estão simpáticos restaurantes, bares e cafés. Um particularmente nos encantou: o Café del Tiempo. Um espaço grande, com vários ambientes e decoração completamente caótica, apesar de harmoniosa. Se come muito bem ai. Experimentei um maravilhoso bife com legumes, suculento e macio.

Café del Tiempo
Café del Tiempo
Paseo Güemes
Paseo Güemes

Essa avenida tem casas lindas, quase todas de inspiração espanhola ou árabe. E são moradia mesmo, imagino que somente de “bacanas”. Um lugar muito gostoso de caminhar, sentar nos bancos azulejados do canteiro central, ficar olhando o tempo passar.

Aqui Fá e Dete fazem pose, e eu faço pose de fotografa do lado de cá
Aqui Fá e Dete fazem pose, e eu faço pose de fotografa do lado de cá

O centro histórico de Salta se situa ao redor da Plaza 9 de Julio. Ai está a Catedral, muito bonita. Normalmente não gosto quando vejo, em países latinos na Europa, igrejas com muito ouro porque imagino que foi todo roubado de nossos países da America do Sul, mas a Igreja de Salta, com seu altar-mór todo em ouro, não me incomodou muito. Na Plaza também está o Cabildo, que vem a ser a administração municipal, com sua arquitetura de arcadas, e o Museu de Antropologia. A grande atração desse Museu são 3 crianças incas mumificadas, encontradas em 1999 a mais de 6.000 metros de altura e que se supõe terem sido sacrificadas. Se quiser fazer cambio de moeda, há um estabelecimento na esquina ao lado da Matriz, que tem ótimas taxas. Por exemplo, trocamos nossos dólares no Banco de La Nación Argentina a 5,8 pesos e nesse lugar cambiamos a 9,10.

Altar da Catedral
Altar da Catedral

Fora da Plaza 9 de Julio uma bela construção, que não pudemos visitar porque estava em obras, é a Igreja de São Francisco. Sua torre é cartão-postal de Salta.

Igreja de S. Francisco
Igreja de S. Francisco

Um dos passeios mais interessantes é subir o Cerro de San Bernardo. Há um teleférico, mas nos dois dias que lá estivemos estava parado para manutenção. Não desistimos, fomos de taxi. E de lá toda La Linda se descortina. E a gente tem a dimensão de como é uma cidade grande, muito bonita, cercada de montanhas.

Vista do Cerro de San Bernardo
Vista do Cerro de San Bernardo