Copenhagen é uma festa

Não sei se por causa da época do ano, não sei se por causa de um feriado, não sei se porque é assim mesmo, mas depois de deixar uma Estocolmo tranquila e calma, chegar a Copenhagen foi como receber um jorro de vida. Cidade agitada, gente nas ruas, uma certa sujeira nas calçadas (sobretudo pontas de cigarro… argh, como ainda se fuma por aqui!), pedintes com cara de imigrantes, enfim, uma cidade normal. E, ao que me pareceu, uma cidade em transformação. Muitas obras, prédios modernos convivendo com os mais históricos. Copenhagen é vibrante.

É sabido que os maiores IDHs do mundo estão aqui na Escandinávia; o de Copenhagen é o primeiro. Um forte investimento estatal nas políticas públicas e a cultura baseada na Lei de Jante, fazem desse país um dos com melhor bem estar social do mundo. A Lei de Jante, para quem não sabe, é o seguinte: em 1933 o escritor dinamarquês Aksel Sandemose publicou um romance onde descreve a pequena cidade fictícia de Jante, onde a população se baseava em um conjunto de regras de convivência, cujo mote mais geral era “não pense que você é especial ou que é melhor do que nós”. Assim, a Dinamarca e outras cidades escandinavas vivem sob esse princípio de igualdade, onde esbanjar e ostentar é visto como absolutamente inadequado. Como o padrão de vida é bastante alto comparado ao nosso, não há desnível social. Claro que fiquei morrendo de vontade de viver um tempo por aqui para ver como isso funciona.

E eu queria ver como essa igualdade funciona porque a principal rua de comércio de Copenhagen, uma grande rua de pedestres, é claramente dividida em duas partes: o início com lojas mais populares e o final com as maiores grifes internacionais. Ou seja, há quem queira ostentar comprando uma bolsa de 10 mil dólares. É uma rua animadíssima, daquelas boa da gente bater perna e olhar as “modas”, sem comprar nada porque tudo é muito caro para nós, pobres pagadores de IOF.

No fim dessa rua a gente chega na parte linda e pitoresca de Copenhagen, o Nyhavn, um canal rodeado por casinhas coloridas que lembra Amsterdam. Aí estão restaurantes, pubs, cafés e a saída dos barcos para passeio pelos canais da cidade, aliás um passeio que vale muito a pena.

Dos passeios turísticos um dos principais é olhar a estátua da Pequena Sereia, inspirado no conto do mais famoso escrito dinamarquês, Hans Cristian Andersen. É uma escultura pequena, bastante delicada e, obviamente, cercada de turistas tentando inutilmente fotografar um ângulo ainda não fotografado. Você pode encarar o tumulto ou simplesmente dá por visto.

Vale a pena olhar os palácios da realeza, mas, apesar de grandes, eles não são aquelas coisas cheias de requififes que vemos em outros lugares da Europa. Talvez pela tal falta de ostentação.

Mas é muito legal se ver a convivência do antigão com o mais moderníssimo. Um dos bons exemplo é a Biblioteca Real. De uma lado está o prédio belo de antigamente, com jardins e a solene estátua de Kierkegaard. Do seu lado, e com uma passarela ligando, está a bela e moderna biblioteca atual. Um prédio negro belíssimo, que por seu aspecto trapezoidal é chamado de “diamante negro”. Em frente a ela está outra construção bela, justamente o Centro de Arquitetura da Dinamarca, que abriga também, cafés, livraria, restaurante, centro de exposições. O prédio da Ópera é outro exemplo da moderna criatividade dinamarquesa. Lindo, pousado na margem de um dos canais, parece uma nave espacial.

Deixei por último a parte, de longe, mais interessante: Cristiania, o território livre de Copenhagen. Nos anos 70 do século passado um bando de hippies invadiu e ocupou um conjunto de prédios militares abandonados e construiu aí uma comunidade, bem dentro do espírito da época. Com o tempo esse espaço passou a ser ocupado também por artistas, escritores, professores universitários (de Humanas, provavelmente 😁) e outras construções pequenas e simpáticas foram acrescentadas.

Visitar Cristiania hoje é entrar numa máquina do tempo. As pessoas têm aquele ar despreocupado e tranquilo de quem aspirou alguma fumaça especial, vestem-se como querem, vivem em harmonia com a natureza, plantando suas hortas e vivendo em paz, apesar de serem eventualmente atanazados pelos homens da ordem quando as coisas saem um pouco do controle. Cristiania passou a ser um ponto turístico importante, mas nenhuma fotografia pode ser feita depois dos muros. Por outro lado, pode-se comprar a canabis que quiser, e tem de muitas variedades e formas. Tudo na santa paz.

Enfim, amei Copenhagen. E voltaria aqui se pudesse.

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