Jerez vale a pena

Então Jerez de la Frontera é uma cidade ótima para se ficar duas semanas como ficamos. Claro que no final já conhecíamos todos os cachorros da vizinhança, já sabíamos quem estava assistindo os espetáculos de flamenco e quem era nativo, já acenávamos para o gerente do Mesón perto de casa. Já éramos quase de casa. Porque a cidade tem esse clima. Mesmo fora do centro histórico as ruas são tranquilas, os edifícios são de no máximo 10 andares e o trânsito é sem lentidão.

Um lugar muito lindo de se visitar é o Alcazar. Cada vez que me vejo em uma edificação de arquitetura mourisca me embasbaco. São lugares tão delicados, com jardins lindos e recantos com fontes que transmitem muita paz. O Alcazar de Jerez é assim. Não é imenso, tem uma pequena mesquita (obviamente transformada em outra coisa pela igreja católica), um enorme jardim lindíssimo, uma horta.

E um incrível moinho de azeite preservado com sua tecnologia do século XVIII. A maneira como as azeitonas era esmagadas e depois prensadas e armazenadas é de uma engenhosidade impressionante. Há ainda as salas de banho árabes, com os espaços preservados mas sem nos permitir ter a ideia de como funcionava, a menos que se leia os painéis explicativos. Uma parte da muralha também está lá, com suas torres de observação. Lindo. Amo.

E há o jerez, a bebida destilada de uva palomino. Aqui existem varias bodegas, com possibilidade de visitação, degustação e compra. Com a vantagem de serem dentro da cidade. Infelizmente, apesar de ter tido muita vontade, não visitei nenhuma. O que aprendi sobre o jerez foi provando nos tabancos. O mais comum e menos alcoólico é o tipo fino. É de cor amarelo translúcido é de sabor meio travoso. O tipo amontillado é cor âmbar, teor alcoólico de 17,5 graus e sabor ligeiramente mais suave. O oloroso, como o nome indica tem um gostoso cheiro defumado, cor âmbar escuro e teor alcoólico de 18 graus. Há ainda o cream, ligeiramente doce e o Pedro Ximenes, bastante doce, para acompanhar sobremesas ou ele mesmo valendo como sobremesa. Dete e eu provamos todos. Nossa preferência ficou entre o amontillado e o oloroso, mas impossível não pedir um Pedro Ximenes ao final da comida.

Os que conhecem cavalos sabem a fama dos andaluzes. Pois em Jerez está a Real Academia de Artes Equestres, onde eles são treinados para aquele lindo cavalgar, quase um bailado. Às quintas-feiras há lá uma exibição para o público e foi outro lugar que fiquei me devendo, apesar da vontade de ter ido ver.

E hoje estamos indo embora. Plenas do som das guitarras, dos cânticos e das danças flamencas. Do maravilhoso vinho e das comidas, sobretudo frutos do mar. Jerez super vale a pena a visita.

Cádiz e o carnaval

Recebemos a recomendação de no sábado irmos à Cádiz. Começaria o carnaval e estaria muito animado por lá. Obviamente não fomos. Se já fugimos da folia no Brasil, cair em outra nem pensar. Assim que fomos na sexta-feira.

Cádiz é a capital da província da qual Jerez faz parte. Está a poucos 40 minutos de trem, a passagem custando 4 euros. E é litoral com porto e praia.

Ao chegarmos já observamos que a cidade se preparava para o carnaval: a prefeitura estava enfeitada com um enorme boneco de bruxa e outro de bobo da corte, havia confete e serpentina no chão e alguns foliões já estreavam suas fantasias. Porque o carnaval ali exige que todos se fantasiem de alguma maneira. Vi uma menina fantasiada de presente, “vestindo” uma caixa (com buracos para os braços e a cabeça) revestida de papel brilhante, ela usando um enorme laço na cabeça. A ideia era que quando ela se abaixasse o laço lembrasse o fecho do embrulho. Criativo e engraçado. Vimos um grupo de rapazes vestidos de escoceses, com saia e tudo e que talvez até fosses escoceses mesmo. E, claro, vimos um grupo com camisetas escrito “samba”, tocando uns tambores como se fosse música baiana, mas que soava como banda escolar em parada de 7 de setembro. Vi, gravei e sai correndo pra não ter nada a ver com aquela marmota.

Em uma enorme praça estava armado um palco e estavam testando o som. Era ali que à noite ocorreria a abertura oficial do carnaval. Havia mesas e cadeiras e algumas pessoas já as ocupavam, como se esperando para um show. Não sabemos como foi.

Cádiz lembra ligeiramente San Sebastian. Talvez por ser litoral, talvez porque tem o mesmo tipo de arquitetura que lembra o final do século XIX. Mas as ruas do centro histórico também são estreitas e curvas, formando nossos amados becos, mas sem o charme de Jerez ou de Arcos.

O que me pareceu foi que aqui o maior movimento turístico se concentra nas praias, que não estão perto do centro, que por suas vez ficou restrito a comércio e lojas de suvenir, sem lugares charmosos para beber ou comer ou tomar um café.

Uma particularidade nas edificações daqui é a presença de torres. Conta-se que as famílias mais abastadas costumavam construí-las para de la monitorar o movimento do porto. Ainda hoje é possível ver varias, principalmente nos edifícios mais perto do mar.

Um lugar muito interessante para comer é o Mercado de Abastos. Além de ser um mercado no sentido estrito, vendendo frutas, legumes, carnes e peixes, há pequenos boxes que vendem comida em pequenas porções e bebidas. Comemos uma deliciosa paella com um cerveja Cruzcampo em um deles.

O grande problema de “day trip” é que a gente tem apenas uma vista do que está mais à mostra nas cidades, perdendo de ver coisas que estão nos recônditos, nos levando a ter impressão errada, sobretudo em cidades maiores. Creio que foi o que aconteceu com nossa ida a Cádiz. Bem que ela merecia uma visita um pouco mais demorada. Fica pra próxima.

Arcos de la Frontera, um dos “pueblos blancos”

Mais uma vez de ônibus, conhecendo cidades que estão muito próximas de Jerez para um bate-e-volta, fomos a Arcos de la Frontera, distante 35km apenas.

Arcos (para os íntimos) é uma cidade antiquíssima, tendo sido encontradas pinturas rupestres em suas cavernas. Durante algum tempo foi assentamento romano, alcançando prosperidade no período muçulmano. Sua localização original no alto de um morro com pouco menos de 200m de altura ao lado do rio Guadelete, deve ter sido estratégica em situações de ocupação. Hoje ela se espalha para além do cerro, mas ainda é completamente cheia de ladeiras, algumas bem puxadas. E faz parte do roteiro dos “pueblos blancos” da Andaluzia. E é uma cidadezinha linda.

Por conta das ladeiras o melhor foi pegar um táxi até o casco histórico. E o carro subiu se espremendo em ruas tão estreitas que a gente se encolhia toda, pensando que ele iria raspar a lateral.

Saltamos no ponto mais alto, a Praça do Cabildo, onde está o antigo prédio da prefeitura e a igreja de Santa Maria. Lá também está um dos mirantes da cidade e a vista é deslumbrante, com prados muito verdes e o rio serpenteando entre eles. Fiquei imaginando que uma vista maravilhosa deve ser olhar esse morro desde lá de baixo. Depois vimos fotos justamente desse ângulo, à noite, com a encosta iluminada. Uau!!!

Mas a cidadezinha é muito linda, com suas ruas estreitas e suas ladeiras. Os prédios, as casas, tudo é branco, e o legal é o contraste com as igrejas, que são daquele tom ocre terroso de quase todas que vimos por aqui.

Além do mirante da Praça do Cabildo existem outros 3, cada um dando para uma paisagem mais linda que outra. Fomos descansar um pouco no do Abade, onde existem incríveis bancos inclinados, seguindo a inclinação do terreno, onde quase é preciso se segurar para não deslizar e empurrar o vizinho.

Aqui, talvez por ser um lugar mais turístico, encontramos muitas lojas de lembrancinhas e artesanatos, mas nada muito diferente que valha a pena comprar.

Aqui comemos super mal. Caímos no conto do menu turístico e de pratos com fotos do lado de fora do restaurante, e entramos no Bar Pátio Andaluz. Tinha jurado nunca comer em lugar assim. Comida horrível, garçons sem o menor saco.

Depois foi encarar as ladeiras descendo, tomar o ônibus e voltar pra casa.

Nas cercanias de Jerez, Sanlúcar de Barrameda

O plano inicial era alugar um carro em Jerez e visitar cidades próximas. Fizemos um roteiro, escolhemos cidades interessantes, organizamos um mapa no Maps do Google. Alugamos o carro ainda no Brasil. E desistimos. Sem nos darmos conta havíamos alugado uma casa sem garagem e nos becos do casco histórico é quase impossível estacionar. Diminuímos a quantidade de cidades a visitar e fomos de ônibus ou trem mesmo.

Saindo de Jerez, 30 minutos e 2 euros depois estávamos em Sanlúcar de Barrameda. A cidade está na foz do rio Guadalquivir, que passa por Córdoba, por Sevilha e deságua no Atlântico, pouco antes do estreito de Gibraltar, que da entrada para o Mediterrâneo. A importância histórica é que foi dali que Fernão de Magalhães saiu para sua volta ao mundo. Na outra margem do rio está a reserva ecológica de Doñana, que não tivemos tempo de conhecer.

Sanlúcar é uma cidadezinha com ares de cidade do interior. O povo calmamente fazendo compras nas vendas, cumprimentando os amigos, parando para uns dedos de prosa. A cidade não nos pareceu nem um pouco turística. Os prédios históricos estão pouco conservados e sem informações sobre suas importâncias.

Subindo uma ladeirinha chegamos na parte alta da cidade. Que parece ainda mais com o interior.

Mas o que mais me impressionou em Sanlúcar foi uma pequena igreja que vimos ao chegarmos ao centro histórico. Diferente de todas as que tenho visto, a porta da frente se abre diretamente para os bancos, sem átrio de entrada. E o retábulo, a parede ao fundo onde está o altar-mor, é negro, belíssimo e surpreendente.

Outra surpresa foi encontrar um restaurante self-service por essas bandas. Nos deram a indicação de um restaurante que fica na praça do Cabildo. Existem vários, com mesas e guarda-sóis na praça, mas em todos o esquema é você entrar no restaurante, fazer seu prato e comer em pé no balcão ou ir para as mesas da praça. Tapas, claro. Por sorte entramos em um beco e descobrimos um restaurante de verdade. Com a curiosidade de que, para chegar até ele, tivemos que passar por um corredor de tonéis de madeira imensos que armazenam jerez, porque o local também é um distribuidor. Daí vc chega no pátio onde está o restaurante já com muita vontade de tomar “unas copas”. Acho que é estratégico. E aí comemos, bebemos e pegamos o ônibus de volta pra casa.

Ainda sobre o Flamenco

O Festival Internacional de Flamengo está acontecendo aqui desde 22 de fevereiro, no entanto não é necessário estar aqui nesse período para ouvir as guitarras, os cantores, as bailarinas, os palmeadores. Na Andaluzia há flamenco todos os dias e em Jerez, por não ser um grande destino turístico, há ainda o flamenco autêntico. A diferença é que no Festival você vai encontrar as grandes estrelas mundiais e as mais recentes inovações da dança. Fomos assistir um dos espetáculos oficiais e o que vimos foi um belo espetáculo de dança, que mesclava flamenco, dança moderna e canções japonesas.

Porque um detalhe interessantíssimo é a paixão dos japoneses pelo flamenco. Sério! Eles vêm aqui estudar guitarra e dança, mantém grupos no Japão, conhecem todos os artistas espanhóis. Há uma estória, contada por uma cantora espanhola que estava em Tóquio e se perdeu nas ruas e foi ajudada por um jovem que a reconheceu. E essa paixão não é recente, parece vir de longas datas. A mim me pareceu surpreendente e incrível esse encontro de culturas tão diferentes. Pois o espetáculo que assistimos era uma homenagem a essa convivência artística.

Mas a mim o que emociona mesmo são os espetáculos populares que ocorrem nas peñas e tabancos. Um palquinho minúsculo, um guitarrista, uma cantora, uma bailarina, muito jerez e pronto, a energia está no ar. E é contagiante, podem crer. Por mais que não se entenda quase nada das letras das musicas, o ritmo das palmas e a emoção que a cantora transmite quase me fazem chorar de tanto amor sofrido.

As canções e as danças são incentivadas com palavras pelo público. “Que bonito”, “bravo” e um “olé” a cada final fazem parte. A idiota aqui foi inventar de acompanhar as palmas, sem perceber que ninguém fazia isso, e recebi um olhar repreendedor da menina no palco. Paguei esse mico, mas depois de algumas “copas” de jerez “no passa nada”.

Jerez entre tapas e copas

Cheguei aqui com o firme propósito de manter minha dieta de 1.800 calorias. Jurava que conseguiria, que saberia dimensionar as porções e calcular os valores. Pero… como calcular tapas? Pequenas porções que não se pode comer uma só. É possível saber quando vale um jerez? Há diferença calórica entre um jerez amontillado e um oloroso ou Pedro Ximenes? Que fazer? Deixar de aproveitar da maravilhosa cozinha espanhola e ficar comendo saladinhas? Tomar água ao invés do divino “vino”? Acho que não, viu? Vou cair de boca e depois a gente vê. Porque a vida é uma só. E no meu humilde entender a gastronomia espanhola é fantástica.

Tapas são comidas absolutamente espanholas, todo mundo sabe. Pois em Jerez há 10 bares de tapas para cada um restaurante. Claro que os bares de tapas servem também “raciones”, que é uma tapa um pouco mais reforçada, e que, às vezes, é melhor pedi-la porque as tapas podem ser muito pequenas para compartilhar.

Sem duvida esse hábito espanhol de sentar num bar, pedir umas tapas e “unas copas” e ficar de papo a tarde toda, é maravilhoso. Ainda mais que aqui podemos ouvir guitarras e cantores de flamenco. Além do mais as tapas são baratíssimas. Algo entre 1 a 3 euros. Daí que você pode pedir deliciosos embutidos (mesmo a estranha “morcilla”, que é feito com sangue), umas saladas de maionese com lagostim, queijo manchego, salmonete ou boquerones, peixinhos parecidos com nossas gingas só que um pouco maiores, pulpo a gallega, enfim…

Há uma cerveja daqui mesmo (a Cruzcampo), mas não sei dizer se é boa ou não, porque de cerveja não entendo. Mas o jerez é imperdível. E tem de vários tipos: fino, amontillado, oloroso, cream, Pedro Ximenes, com sabores que vão do mais travoso ao mais doce, próprio para acompanhar sobremesas. Na verdade esses foram o que Dete e eu provamos. Ainda faltam alguns, que pretendemos provar até o fim da viagem. Porque também são muito baratos, variando entre 1,50 a 2,00 euros “la copa”. É pra se comer e beber e gastar pouquíssimo!

E de tapas e copas começou a dar saudade de comer de garfo e faca, de ir a um restaurante de mesmo. E encontramos um que nos serviu comida maravilhosa. E mais uma vez me surpreendi com os preços. Um prato de um bacalhau finíssimo me custou 12 euros, um vinho chardonnay, 11 euros a garrafa.

Assim, meus caros, com essas delícias e com esses preços, larguei mão de minhas 1.800 calorias e nem sei em quantas cheguei porque parei de atualizar o meu aplicativo de contagem.

Jerez de la Frontera e o Festival de Flamenco

Depois de muitas andanças pela Andaluzia desta vez viemos mais para o sul, quase olhando para a África: estamos em Jerez de la Frontera, província de Cadis, cidade que tem esse nome porque era a fronteira entre a Espanha cristã e o reino de Granada que era, então, mouro.

Viemos a Jerez para o Festival Internacional de Flamengo (Flamenco, em espanhol), desejo antigo de nossa amiga Fatima, que todo ano nos chamava e esse ano conseguiu nos arrastar. A mim e a Dete, o trio completo das “viajeras”. Eu não tinha nenhuma expectativa em relação a cidade e havia lido muito pouco sobre ela antes da viagem porque gosto de ser surpreendida. Claro que o nome nos sugeria a bebida, que eu nunca tinha provado. E que, por ser na Andaluzia, nos lembrava mouros e flamengo.

Jerez é uma cidade relativamente grande, com mais de 200 mil habitantes e à primeira impressão pareceu-me uma cidade rica pela quantidade de lojas de automóveis de luxo por que passamos na vinda do aeroporto. O número de pedintes nas ruas, no entanto, parece desmentir essa impressão. Estamos hospedadas, como sempre, no centro histórico que é daquele jeito que amamos, com becos (alguns tão estreitos que chegam a ser claustrofóbicos), ruelas curvas que de repente se abrem em um largo, com bares, cafés e restaurantes. Há uma rua larga de pedestres, que é onde estão as lojas. Curiosamente a única grife internacional que vimos foi a Zara e, mais curiosamente ainda, poucas lojas de “bugenir” (bugingangas de souvenir).

Nosso apartamento está ao lado da antiga muralha da cidade, preservada apenas em poucos trechos e quase encoberta pelas construções posteriores. Mas as igrejas (e são muitas) são simples, sem a ostentação, as obras de arte e os dourados das italianas e portuguesas. Mesmo assim todas elas cobram “uma pequena ajuda” aos visitantes. Me chamou a atenção a limpeza das ruas e das edificações. Poucos são as casas com aparência de abandonadas ou desleixadas.

Aprendemos que Jerez tem 3 coisas que a tornam famosa: o vinho (que, obviamente, provamos e conto depois), o flamenco e os cavalos. Aqui está a Real Escuela Andaluza del Arte Ecuestre, com os seus famosos cavalos que bailam.

E o Festival?

Todo ano por essa época acontece o Festival, que funciona mais ou menos assim: uma programação oficial com a nata mundial do flamenco, uma “off broadway” em espaços menores para grupos iniciantes e a programação das “peñas” e “tabancos”, mais simples, com cantores e guitarristas que já tocam e cantam habitualmente nesses lugares. “Peñas” e “Tabancos” são o que a gente poderia chamar de boteco: um balcão, mesas sem toalhas, bebidas e tapas, um pequeno palco. A diferença entre um e outro é que os “tabancos” era originalmente depósitos e distribuidores de jerez para os bares, e hoje é ainda o lugar onde se pode tomar os seus variados tipos. Alguma dúvida que esses são nossos locais preferidos?

A primeira apresentação que assistimos foi em um “tabanco” e o guitarrista, pasmem, era brasileiro, carioca mais especificamente, com correntes de ouro no pescoço e no punho, parecendo mais um cantor de rap. Mas tocava bem, o bichinho. Cantar flamenco é sofrer. Apesar de não entendermos quase nada das letras das musicas, a cara de sofrimento e os gestos das cantoras e cantores dá vontade de chorar junto com eles. O rosto contraído, as mãos suplicantes se fechando e tocando o coração, outras vezes batendo os pés no chão como se com raiva, enfim uma explosão afetiva de quem está realmente sentindo o que canta. Maravilhoso! E aprendemos com a platéia a dizer “olé” a cada desfecho.

E seguimos por aqui, com dias de sol luminoso e temperatura de 16 a 12 graus. Existe coisa melhor?

San Sebastián, uma cidade da Belle Epoque

Situado no litoral do Mar Cantábrico, San Sebastián (Donostia no idioma Basco) é uma cidade cercada de praias, mas que preserva muito bem aquele ar das praias dos anos 20 do século passado. Os prédios, os monumentos, as praças são adornados com uma profusão de elementos, que nos remete diretamente a outra época. A impressão que dá é que a qualquer momento vamos nos deparar com senhoritas de vestidos longos e sombrinhas, e cavalheiros de bengalas.

A cidade tem uma configuração bastante interessante, com as ruas meio que circundando uma colina central, de modo que ficam bem demarcadas as regiões, incluídas até nos folhetos turísticos: a parte da juventude, no bairro de Gross, que chega até a praia de Zurriola, com suas enormes ondas próprias para surfistas, a parte antiga e tradicional, incluindo o centro, o casco antigo e chegando a praia das Conchas e a região de Ondarreta, mais sofisticada, com uma praia mais tranquila e protegida por arrecifes.

O encontro do rio com o mar

A praia de Zurriola

O rio Urumea divide a cidade e tem nas duas margens passeios bem agradáveis e arborizados. Mas, na minha humilde opinião, uma coisa que eles não sabiam era ornamentar suas pontes. São uns postes tão feios, umas esculturas tão over, que, sinceramente, não me parecem bonitas.

Na região do centro, na grande e bonita avenida da liberdade, está o comércio mais caro, com as lojas de marca tradicionais. Haviam nos dito que a praia das Conchas parecia com Copacabana. Nada mais longe da verdade. É uma praia bem anos 20, 30, com cafés e restaurantes do lado do mar e palacetes do outro lado. Cafés e restaurantes com aquele ar de burguesia decadente. Tenho certeza que devem ter existido aquelas casinhas de se trocar de roupa que vemos em filmes de época.

Praia das Conchas

Para se chegar na Ondarreta se atravessa um pequeno túnel para pedestres, que é uma lindeza. Um imenso painel cobre o seu teto, com uma pintura abstrata que faz parecer que estamos embaixo da água. Em toda a orla há bancos, ciclovias, jardins. Nos sentamos para apreciar a paisagem e o verdadeiro desfile de elegância do povo que passava. Impressionante como homens e mulheres se vestem bem nesse lado da praia. Um imenso contraste com os das outras praias.

Como sempre o que apreciamos mesmo foram os becos do centro histórico, com seus bares de pintxos e lojas de “bugenir” (bugingangas de souvenir). Também gostamos muito de mercados e sabíamos que aqui havia o famoso Mercado de Bretxa. Mas, diferente de outros lugares o Mercado perdeu muito de sua característica de puro mercado. É que a ele foi acoplado uma espécie de shopping center, com lojas que nada tem a ver com um mercado tradicional. Aí às bancas de frutas e verduras foram empurradas para o lado de fora do prédio. Ficou esquisito.

Apesar de tudo o Mercado tem um excelente bar de pintxos, onde comi e experimentei um “coqtel cave”, a base de champanhe, romã, abacaxi e gotas de grenadine. E uma curiosa loja de produtos orgânicos, onde compramos um creme para dores musculares a base de canabinol. Pelo menos é o que diz o rótulo 😄

A cidade é bastante famosa por sua gastronomia, mas não demos muita sorte. O restaurante com estrela Michelin que íamos estava fechado para as festas, assim que nos conformamos com os não tão estrelados. Mesmo assim comemos muito bem.

Nosso último dia em San Sebastián foi debaixo de chuva. É preciso que se diga que chove muito no País Basco. E não só no inverno. Sempre chove. Quem vem pra cá não pode esquecer um bom abrigo impermeável, umas botas e um guarda-chuva.

E para terminar, compramos uma rosca de Reis, festa bastante festejada em toda Espanha. 😄

A complexa arte de comer pintxos

A primeira vez que efetivamente comi tapas em um bar espanhol (eram tapas e não pintxos, porque estávamos em Sevilha e é assim que se chama lá) fomos levadas por uma amiga espanhola. Era um lugar pequeno, entulhado de gente, alguns sentados na barra mas a grande maioria em pé ou encostado em mesas altas. Nossa amiga que já conhecia o lugar foi se enfiando bar a dentro até encontrar um espaço onde coubéssemos. Em pé, naturalmente. Nos deixou ali e foi se metendo até o balcão, e, por cima dos ombros de outras pessoas, chamou o cara que servia e pediu os vinhos e as tapas. E trouxe tudo ela mesma. Apoiei minha taça em um batente da janela e ficamos ali, papeando. Depois fomos a outro bar e o processo se repetiu. No fim tínhamos bebido umas três taças de vinho e comido talvez umas quatro tapas.

Para nós, brasileiros, é um processo complicado. Estamos acostumados a sentar em uma mesa, esperar o garçom, fazer os pedidos e sempre que quisermos mais alguma coisa, ele estará sempre ali para nos trazer. Ele corre atrás e nós ficamos comodamente esperando. Mesmo nos botequins cariocas, com o hábito de uma cervejinha do lado de fora do bar, muitas vezes há um garçom circulando.

Aqui na Espanha o processo parece ser o contrário do nosso. O objetivo parece não ser beber ou comer demais, mas beber e comer apenas na medida de alimentar a conversa, estimular o papo, mesmo que esse dure toda a noite. Talvez por isso eles não se importem tanto em ultrapassar multidões para conseguir sua bebida e seus pintxos. Foi interessante ver cedinho na manhã do dia após o réveillon, muitos jovens voltando das festas e nenhum parecer embriagado.

Bom, chegamos nós aqui no País Basco, duas senhoras de cabelos brancos em um lugar famoso pelos pintxos e todos os blogs de viagem sugerindo bares de pintxos, e os sites de gastronomia dizendo quais os melhores. Tínhamos que provar, claro! Todos diziam que os melhores pintxos estavam nos bares mais cheios de gente, que o bar sujo era sinal que tinhas bons pintxos porque todos iam lá.

Aí nos deparamos com dificuldades imensas: como chegar até o balcão? Como gritar para o cara? E pedir o que? Qual? São tantos e com caras tão ótimas que ou você pede porque já conhece ou arrisca só pela cara. Como tem muita gente, você tem que pedir e pagar logo. Se os com multidões são os melhores, esses é que são complicados de chegar e ser atendido.

E tem mais. Na hora do almoço o povo pede um ou dois pintxos e pronto, está almoçado. E nós, que nos acostumamos a almoçar mais fartamente e sentados? No primeiro dia ficamos olhando aqueles balcões cheios de coisas lindas, sem saber como chegar e como pedir. Terminamos fazendo a heresia de comer uma paella, num lugar que só vendia paella. Tava horrível! Mas quando o lugar estava quase fechando e já não tinha muita gente, fui procurar um lugar mais tranquilo, com lugar para sentar e comi meu primeiro pintxo, uma coisa divina que misturava presunto de Parma, queijo de cabra e um molho de cebolas caramelizadas.

Dai em diante resolvi desprezar o conselho de ir em bar lotado, porque reconheço que não tenho a competência espanhola de ir abrindo espaço e de saber pedir. Usamos a estratégia de chegar mais cedo, num horário ainda não espanhol, sentarmos na barra, às vezes perguntar à pessoa do lado o que é que ela tá comendo, e tem dado pra saber o que pedir. E se de-li-ci-ar. Porque, gente, esses pequenos petiscos são maravilhosos. Também descobri que três pintxos e uma taça de vinho é mais que suficiente para um almoço. E você vai pagar algo em torno de 3 euros por cada pintxo e 2 e pouco pelo vinho. Com a ressalva que a taça de vinho é na verdade 1/3 da taça. Mas é muito barato e os vinhos da casa são sempre muito bons.

Então, se você for ousado, enfie-se na multidão e vá em frente. Mas se for senhores ou senhoras assim menos intrépidos, usem da nossa estratégia. Mas nunca, nunquinha, deixe de comer essas coisinhas incríveis.

Vitória-Gasteiz, a inesperada surpresa

Distante uma hora de Bilbao, por uma autopista excelente, Vitória-Gasteiz é a sede do governo e do parlamento da Comunidade Autônoma do País Basco, podendo ser considerada, ainda que não oficialmente, a capital basca. Em épocas antigas foi uma cidade de grande importância estratégica por ser o caminho romano entre a França e a península ibérica. O nome oficial da cidade é esse, assim com hífen, porque é, diplomaticamente, a junção dos dois nomes pelos quais a cidade era conhecida: Vitória, pelos romanos, e Gasteiz pelo povo basco.

Nunca tinha ouvido falar dela até que uma amiga espanhola nos sugeriu. Fui ler, me encantei e incluímos no roteiro. Decisão acertadíssima. Vitoria é uma cidade lindinha. Quando você chega de ônibus, como nós chegamos, nos deparamos com uma cidade moderna, ruas largas, edifícios baixos (quando vejo isso me dá uma raiva dessa nossa mania de torres e edifícios de 20, 30 andares!), muitas praças e jardins. Fizemos uma cara meio assim, de decepção. Mas, felizmente o nosso hotel (num belo estilo anos 30) ficava no limite entre essa parte mais nova e o belo centro histórico.

Atravessamos a Plaza Floridita e já estamos na Plaza de la Virgem Blanca, a partir de onde começam as coisas realmente bonitas da cidade. Era um lindo dia de sol, com temperatura de maravilhosos 13 graus, e o mundo inteiro tinha resolvido sair de casa! Bares de calçada entupidos de gente, o povo no sol frio tomando cerveja e comendo pintxos, país com crianças, gente com os cachorros, enfim, a impressão que deu era que fazia anos que aquele povo não via sol.

No fundo da praça estão duas coisas interessantes de se ver. A igreja de São Miguel Arcanjo, de pedras sóbrias, e que não pudemos visitar por estar fechada. Um pouco mais acima (sim, aí começam as ladeiras e os becos) os “aquillos” – construídos no século XVIII – um conjunto de casas com terraços escalonados em arcos, de forma a resolver o problema do desnível entre a parte medieval e a nova cidade que se ampliava.

A igreja de Santa Maria está em restauração, mas pudemos ver uma parte da antiga muralha que está junto a ela.

Nessa parte antiga chama também atenção os murais pintados nas empenas de algumas edificações. Belíssimos! Mesmo quando não há pinturas figurativas algumas laterais são pintadas de cores vibrantes, dando um aspecto muito bonito.

E para subir as ladeiras encontramos a mesma comodidade que havíamos visto em Portugalete, as esteiras rolantes, aqui com a vantagem de serem cobertas para proteger do vento e da chuva.

Uma curiosidade que encontramos foi o Museu dos Naipes, que conta a história dos baralhos, sua fabricação e modelos antigos.

Come-se muito bem também aqui em Vitória, mas, como em toda Espanha, os restaurantes fecham cedo, ficando aberto apenas os bares “de picoteos”. E também como em Bilbao, as pessoais tomam as ruas com seus copos de bebidas e seus cigarros. Argh, como se fuma!

Não costumo me referir a lugares onde como, mas não posso deixar de falar do Sagartoka, um restaurante que você entra e não dá nada por ele porque você vê apenas corredor estreito com um balcão do lado, mas se você conseguir ultrapassar a multidão do bar, ao fundo vai encontrar um restaurante lindo, moderno, com uma comida excepcional, sem ser absurdamente caro. A especialidade da casa é um petisco feito com pequenos ovos envolvidos em um tipo de massa, que você põe inteiro na boca e quando mastiga o ovo derrete, quentinho. Delicia. O bacalhau a Pil Pil, prato típico basco, é também uma delicia.