Querétaro, a surpresa da viagem

Acho muito legal quando a gente, sem ter planejado, precisa ir a algum outro lugar e, de repente, descobre que aquele era o lugar que a gente deveria ter ido desde o começo.

A Latam antecipou nosso vôo de volta e com isso desmontou nosso plano de sair de San Miguel direto para Cidade do México. O tempo ficou muito apertado já que não há ônibus direto, todos fazem “baldeação” em Querétaro. O jeito foi sairmos um dia antes de San Miguel e já ir dormir em Querétaro, cidade da qual nunca havíamos ouvido falar. E foi a melhor opção que fizemos nessa viagem.

O ônibus levou pouco mais de uma hora (sempre aquela coisa legal de eles fornecerem lanche e agua) até Querétaro. Quando fomos entrando na cidade a visão foi de uma cidade grande, com prédios altos, muito tráfego. Eu pensei “mais uma cidade que pensamos ser pequena e é uma cidadona”. No taxi até a nossa casa, mais tráfego, mais predios. Dai o taxi dobra numa rua arborizada à margem de um riachinho e é como se estivéssemos em outro mundo. Nessa rua estava a casa que alugamos (airbnb, claro), bem em frente ao rio e de uma das mais famosas árvores do México, o ahuehuete. Na verdade lemos sobre essa “atração turística” de Querétaro, descobrimos que havia uma em frente de nossa casa, mas, sinceramente, não temos certeza se a vimos. Porque cada árvore grande que encontrávamos achávamos que era o tal ahuehuete, cujo nome lindo ficamos repetindo à exaustão. 

Só tínhamos um dia, então largamos a bagagem e rumamos para o centro histórico. Depois de enfrentarmos de novo o trânsito, o taxi nos deixa em uma praça e … uau! que lugar mais lindo!

O Centro Histórico de Querétaro é daqueles lugares que você não tem vontade de sair. Relativamente pequeno é arrumadinho, arborizado, bem preservado na sua arquitetura colonial, com cafés interessantes, lojinhas com artesanato diferenciado e bons restaurantes. Além, é claro, do valor histórico dos monumentos e construções. As barraquinhas de artesanato mais tipo “buginir” (bungingangas + suvenir) ficam concentradas em duas ruas de pedestres, em estruturas móveis, de modo que podem ser deslocadas quando necessário.

Infelizmente só estivemos por um dia nessa cidade, porque a vontade foi ficar mais tempo. 

San Miguel de Allende e o dia dos mortos

Apesar de todo o México festejar o “Dia de Muertos”, desde que pensamos nessa viagem tínhamos a intenção de estar em uma cidade pequena neste dia. Imaginávamos que assim estaríamos em um festejo mais autêntico, menos turísticos. E escolhemos San Miguel de Allende, cidade da província de Guanajuato, mais ao norte da Cidade do Mexico, de onde está a 3 horas de ônibus. Além do nome lindo, a cidade nos atraiu por se situar no chamado “México colonial”.

Fomos de Puebla a San Miguel de ônibus em um percurso de 3 horas e pouco. Os ônibus que são super confortáveis, as estradas excelentes e, interessante, em todos nos servem lanche (geralmente agua ou refrigerante, sanduíche, biscoitos) grátis!

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Depois dos mais de 2.000 metros de altitude de Puebla, que demorei a me acostumar, com meu coração disparando a cada andada mais puxada, foi um alívio chegar a San Miguel, com seu 1.800 metros. Parece pouco, mas já fez uma grande diferença. Ou então nós já estávamos acostumadas. O fato é que encarar as ladeiras de San Miguel foi bem mais tranquilo. Sim, porque existem muitas ladeiras, ruas estreitas e trânsito maluco. E o trânsito é maluco porque não existem semáforos em San Miguel! Mas é legal ver que, apesar disso, não vimos nenhum acidente e sempre que parávamos em uma travessia de pedestres, todos os carros paravam imediatamente.

San Miguel é uma cidade lindinha e realmente muito parecida com as cidades européias pela arquitetura e traçado sinuoso das ruas. E não é um “pueblito”. Tem uma população de mais de 50 mil habitantes, dos quais cerca de 17% são estadunidenses e canadenses. Esses estrangeiros residentes formam uma colônia tão forte que chegam a ter seus próprios festejos do dia dos mortos. Há uma grande polêmica sobre esse enclave norte-americano. Uns acham que é interessante porque atrai turistas e move a economia, outros acham que eles não tem interesse na cultura mexicana, inflacionam o mercado e nem se interessam nem em aprender o idioma.

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De qualquer maneira San Miguel tem muitos, mas muitos turistas. Não sei se é somente nessa época do ano, mas a cidade estava lotada de gente de todas as nacionalidades. E realmente os preços são mais altos que em Puebla, tanto na hospedagem quanto na alimentação. Mas apesar da multidão a cidade é linda, o centro histórico é precioso e se come muito bem. Talvez por conta dessa multiculturalidade já se pode encontrar restaurantes com comida de outras nacionalidades.

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Tal como contamos que estava Puebla, aqui também o Dia de Muertos não é somente o dia 2 de novembro. As celebrações, as decorações, as fantasias estão presentes na cidade dias antes. Tive muita vontade de fazer a maquiagem típica das Catrinas, mas apesar de ter muitos lugares fazendo, estavam sempre cheio de gente e com filas grandes. E ai vamos encontrar desde maquiagens sofisticadas, com gliter, pedrinhas e desenhos, até as mais pobrinhas, que parece que simplesmente passaram carvão ao redor dos olhos.

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A noite do dia primeiro foi a grande festa popular. Um cortejo saiu do centro da cidade e desceu as “callejitas” até o pátio da igreja de San Juan de Dios. O cortejo não é exatamente o que conhecemos como fúnebre. Ao contrário, há reverência mas também música e alegria. É aberto pelo pároco católico local e seguido por bandas de músicas, mariachis, carpideiras, Catrinas e Catrines (o equivalente masculino), uma ala só de senhorinhas com seus trajes típicos, outra só de crianças usando fantasias ligadas ao tema.

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Aqui não há costume de distribuir doces para as crianças, mas vi alguns “gringos” fazendo isso como se fosse o “halloween” deles. No entanto há barracas com doces por todo canto. Doces de açúcar no formato de caveiras, catrinas, caixões, animais, e tudo que se possa imaginar. Depois do cortejo se dispersar teve distribuição do “pão dos mortos” pelos padeiros locais a todos os que estavam na praça e nos sentamos para ouvir um concerto de mariachis e uma cantora local de voz maravilhosa, que não entendemos o nome. Uma noite linda, tranquila e inesquecível. Uma coisa nos chamou a atenção e nos fez pensar na diferença com os festejos em nosso país: não vimos em nenhum momento consumo de bebida alcoólica, nem mesmo uma simples cerveja.

San Miguel tem aquelas fortes e lindas cores mexicanas e o melhor lugar para encontrar seu artesanato é o Mercado de Artesanias. Não imagine um galpão, como são normalmente esses mercados. Aqui as barracas de artesanato se apertam de um lado e do outro de um beco sinuoso e enorme, que ocupa cerca de 6 quarteirões. Uma festa para quem gosta de catar preciosidades.

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Mas também há um artesanato mais sofisticado. Prata, roupas em linho em modelos rústicos, quadros e esculturas. Esses produtos, obviamente, não estão no Mercado, mas em pequenas lojas. Uma delas está no Mercado del Carmem, um lugar imperdível para se comer e beber. É um espaço meio hipster, com boxes vendendo vários tipos de comidas e bebidas, e mesas únicas para servir todos os boxes. Muito recomendado!

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E assim é San Miguel de Allende, um lugar multicultural, movimentado, lindo e imperdível.

Atlixco e Tochimilco

Enfim conseguimos conhecer uma cidade pequenina, como eu imaginava que seriam todas as que já visitamos. Atlixco está a uma hora e meia de Puebla e é também um “pueblo mágico”.

Uma pausa para explicar o que são os “pueblos magicos” aqui no México. Apesar de a primeira vista o nome nos sugerir que algo de magia existiria nessas cidades, na verdade trata-se de uma estratégia de publicidade do governo, denominando assim as cidades que preservam tradições indígenas, coloniais ou religiosas. Atualmente 111 lugares são reconhecidos assim e ganharam o título de “pueblo mágico”.

Contatamos uma agência de viagem e fomos, ao preço de 500 pesos (pouco mais de 100 reais) por pessoa, em uma van para Atlixco e Tochimilco.

Atlixco é aquela cidadezinha tranquila, com ruas arrumadas e floridas, que da vontade de ficar por lá mais tempo do que uma manhã. A cidade é grande produtora de flores e plantas, que movimenta sua economia principalmente nessa época do ano. Por isso ela é conhecida como Atlixco de las flores.

Aqui também tudo está preparado para o dia dos mortos. Um imenso tapete de flores formando figuras se extende por toda uma calçada do Zócalo, que aliás é lindo, com um coreto no centro, árvores imensas e bancos. A cidade tem boa infraestrutura de hotéis e restaurantes, mas não vi muitos turistas por lá.

Há uma bela e colorida igreja da Ordem de San Francisco, mas o mais famoso é a capela de San Miguel, que está em uma colina para qual é preciso algum preparo físico. Levando em conta que se está a 2.000 metros de altura, não é uma empreitada fácil. Dizem que vale a pena, mas meu fôlego não me permitiu ir.

Há muito mais o que ver em Atlixco, mas infelizmente tivemos muito pouco tempo. E lugar para se ficar pelo menos dois dias.

Deixamos para almoçar em Tochimilco e foi a grande decepção. Tochimilco é uma cidade muito pobre, além de ter sido bastante atingida pelo último terremoto de maio de 2018. A cidade não tem um restaurante nem nenhuma infraestutura de turismo. Mas foi interessante conhecer o que chamamos “México profundo”. Comemos, na pequena feira dos produtores locais, cecinas com tortilhas. Cecinas são carnes cortadas em formato de bifes fininhos que são salgadas e secadas ao sol. Depois de 2 dias estão prontas para serem grelhadas e comidas. Uma espécie de carne de sol não muito salgada e finas quase transparentes. Uma delicia. Na feira elas são empilhadas “a céu aberto” e grelhadas em grandes churrasqueiras.

Enfim, voltei com a sensação que deveríamos ter ficado o dia todo em Atlixco.

Cholula, quase dentro de Puebla

Cholula está a apenas 11km de Puebla, em um percurso que nos parece não sair da cidade. Podemos dizer que faz parte da “grande Puebla”. Tem uma importância histórica por ter sido o lugar que existe como povoado há mais tempo nas Américas, sendo uma antiga capital indígena do período pré-hispânico. A cidade está aos pés do vulcão Popocatepetl, que só conseguimos ver a silhueta porque, apesar do sol forte, estava muito enevoado.

Mas a grande atração de Cholula é sua pirâmide, a maior do mundo em volume. E o interessante é justamente que não a vemos. Ela foi construída pra dentro da terra, em uma colina. Dizem que quando os espanhóis chegaram destruíram toda a cidade, mas não conseguiram destruir a pirâmide porque não a encontraram. O acesso às suas ruínas é feito por um túnel subterrâneo, que eu, obviamente não entrei (sou uma claustrofóbica confessa). Recentemente eles começaram uma reconstrução que nos dá uma ideia do que ela seria.

No topo da colina está a igreja de Nossa Senhora dos Remédios, com acesso por “milhões” de degraus, pelo que preferi contempla-lá de baixo mesmo.

A informação que tivemos foi que Cholula na verdade são duas: San Pedro de Cholula e San Andrés de Cholula, mas sinceramente não sei ode começa ou termina uma ou outra. Sei que em San Andrés está uma das igrejas mais interessantes da cidade: a Igreja de Santa Maria Tonantzintla.

Um parêntesis para dizer que por onde andamos vimos igrejas em obras. Parece haver um projeto de restauração delas. Em Cholula um taxista nos disse que eles estavam restaurando e depois iriam colocar um teleférico ligando todas elas. Claro que não acreditamos.

A Tonantzintla é um igreja do século XVI, representativa do barroco popular. Seu nome tem origem no idioma náuhuatl e significa “lugar de nuestra madrecita”. A mim me chamou atenção as imagens colocadas na sua fachada. De uma rusticidade comovente.

Também em San Andrés visitamos a igreja de San Francisco Acatepec, construída no século XVII, mas ao contrário da anterior, ricamente ornamentada, com baixos relevos naif em todo teto.

Tanto em Puebla como em Cholula o que me chamou atenção foi um certo descaso com as cidades, mesmo nos locais mais turísticos. Prédios com pintura descascando, águas servidas rolando pelos meio-fios, muito ambulantes vendendo comidas de forma pouco higiênica. Enquanto isso se restauram igrejas. Não sei, não me parece justo. Mas a população adora.

Puebla, um pouco mais

Puebla é uma cidade cujo turismo mais intenso é o dos próprios mexicanos. É raro se ver aqueles turistas branquelos com enorme máquinas nos pescoços ou aquelas hordas de turistas em excursão. Por isso temos sempre a impressão que os lugares por onde andamos são os lugares por onde os nativos circulam, o que nos deixa muito à vontade.

Fora do Centro Histórico ainda nos sentimos mais dentro da vida pueblana. E encontramos lugares bem interessantes, ainda que alguns bastante deteriorados. Um deles é o chamado Barrio del Alto, com ruas inteiras cheias de grafites nas paredes, com temas ligados à cultura mexicana. No mercado José Maria Morelos se pode comer comida simples e ouvir os mariachis.

Mais, na minha opinião, os lugares de Puebla mais interessantes são o Barrio dos Artistas e Los Sapos, ambos relativamente próximos ao Zócalo. O Bairro dos Artistas é na verdade uma pequena rua agradável, arborizada, com bancos em sua extensão, com ateliês e exposições de pinturas, desenhos e esculturas dos artistas locais. Ao final dela está o Mercado de Artesanias, muito semelhante à todos os mercados de artesanatos. Precisa-se de muita garimpagem para encontrar-se algo interessante.

Los Sapos é, para mim, a região mais bonita de Puebla. São duas ruazinhas, meio becos, lindamente coloridas, com cafés, lojinhas simpáticas de um artesanato mais diferenciado é uma feirinha permanente. Ao redor dessas ruas está um comércio muito importantes de antiguidades, com coisas belíssimas.

A gastronomia pueblana é, como a de todo o México, bastante picante. Quando eles nos dizem “no pica nada”, deixe perto um copo de água, porque sim, pica! Depois de algum tempo a gente se acostuma e até gosta do ardorzinho. Em Puebla há um calendário gastronômico e todos os restaurantes parecem segui-lo, creio que como uma maneira de uniformizar a oferta. No mês de outubro a comida era o Mole de Caderas, uma espécie de ensopado (picante, naturalmente) com o quadril de bode. De todas as comidas que provamos, me encantei pelo Chili en Nogada. É um pimentão grande recheado com um refogado de carne de porco moída e mil outras coisas como maçã picada, pêssego picado, cebolas, alho, tomates. Tudo isso recoberto por um molho de nozes, amêndoas, passas e creme de leite, salpicado com sementes de romã e salsa. É divino!

Pôde-se comê-lo em quase todos restaurantes da cidade, mas se você quiser comer a autêntica comida pueblana, vá ao Mercado de Los Sabores Pueblanos, um lugar super simples, onde se come bem e super barato.

Em seguida contarei sobre Cholula, uma cidade que praticamente faz parte da “grande Puebla”.

Voltando ao México: Puebla 🇲🇽

Um desejo antigo era estar no México no dia dos mortos. Ano passado André Salgado veio com um grupo e atiçou ainda mais a vontade. Esse ano assisti Coco, a animação da Pixtar, e aí não deu pra segurar, vamos ao México outra vez. E aqui estamos.

Nosso roteiro inclui apenas duas cidades: Puebla e San Miguel de Allende. Estamos agora em Puebla de Zaragoza, la Ciudad de Los Angeles.

PUEBLA

Puebla está a 2h30 da Cidade do México, em ônibus que sai direto do aeroporto (310,00 pesos) para cá, numa viagem confortável, desde que nos livremos dos engarrafamentos dentro da interminável capital.

Minha amiga Fatima sempre me falava de Puebla como “uma cidade lindinha” e, por conta de ouvir assim no diminutivo, imaginava uma cidade pequena, um pueblito. Equívoco completo. Puebla tem mais de 4 milhões de habitantes e se somar as cidades vizinhas, chega a mais de 7 milhões. É a quarta cidade mexicana em população.

Mas se nos restringirmos ao centro histórico, temos a impressão que estamos mesmo em um pueblito. O Zócalo (a Plaza Mayor) é uma grande praça de cidade do interior: árvores enormes, fonte, bancos, adolescentes escolares batendo perna, carrinhos vendendo balões e churros. Daqueles lugares que adoramos sentar e ficar horas vendo as modas. O comércio nas imediações nos transporta também ao tempo em que a gente saía para olhar as vitrines das lojas. Se você não prestar atenção aos cafés e restaurantes de um dos lados da praça, daqueles próprios para pegar turista, você pode ficar com a impressão que não tem disso na cidade.

Muitas igrejas, muitas mesmo. Com uma coisa curiosa: eles pintam a parte de alvenaria de cores fortes (roxo, amarelo, mostarda, ocre) e deixam as partes em pedra no original. A maioria delas não é particularmente rica ou bonita. A impressão que me deu foi de uma coisa meio cafona, “over”, ou seja tipicamente mexicana.

Uma semana antes da celebração dos mortos a cidade já está toda enfeitada. É lindo e divertido a maneira como eles tratam a morte, sem a lamúria a que estamos acostumados, mas com uma saudade alegre. Por todo canto a decoração é de caveiras coloridas, esqueletos brincalhões e, a mais famosa de todas, a linda Catrina, com vestidos fantásticos e e enormes chapéus emplumados!

A popular Catrina foi uma gozação, feita pelo caricaturista José Guadalupe Posadas, às madames ricas, que terminariam todas em caveiras. Eram chamadas por ele de “Calaveras Garbanceras”, em referência aos catadores de garbanzos. Posteriormente a figura foi incorporada por Diego Rivera ao seu belíssimo mural “Sueño de una tarde dominical”.

As lojas, os restaurantes, os bares, todos se enfeitam também. Em alguns lugares essa decoração se mistura com árvores de Natal.

Mas a mais importante tradição é a montagem das “ofrendas“, espécie de altar em homenagem aos seus mortos particulares, onde se põe comidas e bebidas, flores, objetos pessoais, encimados por fotos. Podem ser simples, para um só morto, mas geralmente são grandes para abrigar todos os da família. O arranjo fica belíssimo. A crença é que os mortos nesse dia visitam os familiares que lhes prestarem homenagens, se não houver eles não aparecem. Daí a preocupação em contemplar todos os entes queridos.

Mas se há alguma coisa que realmente me surpreendeu em Puebla foi a imensa oferta de doces de todos os tipos e modelos, muitos feitos exclusivamente com açúcar, como o nosso alfenim. O gosto por doces chega ao ponto de existir uma rua inteira de lojas que vendem exclusivamente doces – a calle 6 oriente. Nessa época os doces são alusivos à figuras dos dia dos mortos. Tem lindas caverinhas açucaradas, cestinhas com mix de doces, biscoitos recheados chamados “pastéis de Santa Clara”. Enfim, um suplício para quem adora doces e não pode comê-los.

Essas foram as primeiras impressões. Depois conto mais.

De volta ao Mexico: Coyoacan

Por questões de roteiros de vôo, tivemos que voltar pelo México e lá passar um dia. Fátima sugeriu que arranjássemos hotel no bairro de Coyoacan, um lugar que fica ao sul da Cidade de México, longe do centro histórico. E como essa nossa viagem se caracterizou por ficarmos em locais mais caseiro, menos hotelzão, ficamos em um B&B lindinho já no nome “Casita del Patio Verde”. Uma casa que tem apenas 3 apartamentos, mas com um jardim gostoso e aquele clima de que estamos em casa. Nosso quarto – o “cuarto del árbol” -, tinha uma varanda que dava para o pátio da frente, para um flamboyant lindo, com passarinho fazendo algazarra pra nos acordar.

O bairro de Coyoacan é um daqueles lugares que quando voce pensa no México não acredita que exista. É o bairro mais antigo do Distrito Federal e foi o lugar onde o invasor Córtes iniciou seu ataque à antiga cidade azteca. Pelo que vimos hoje é um lugar bastante residencial, com casas em estilo colonial espanhol enormes, onde, imaginamos, só devem morar gente de grana. As ruas são bastante arborizadas, com aquelas arvores enormes que só vimos no México, o calçamento é de pedras, mas sua característica maior é a existencia de ruas estreitinhas e inúmeros bequinhos (callejónes). Em alguns aspectos me lembrou certos lugares de São Paulo, que voce sai de uma avenidona e cai em um labirinto de ruas, praças, árvores. No começo (ou fim?) da Heitor Penteado tem um lugar assim.

Bem perto do nosso Callejón estão dois lugares muito incríveis: a Plaza de Santa Catarina e a Casa de Cultura Jesús Reyes Heroles. A praça é um lugar tranquilo, com dois restaurantes típicos e a simpática igrejinha de Santa Catarina de Siena.

A Casa de Cultura é um enorme casa colonial antiga, com lindos jardins, onde fervilham as manifestações culturais de todos os gêneros. No dia que visitamos estava havendo uma festa em comemoração a derrotada do fascismo na Italia. Mas estavam programados concertos, exposições, cursos. Um lugar muito especial.

Mas adiante chegamos no Parque Centenário. E ai a inveja e o despeito bateram em mim. Inveja por existirem lugares assim, da mais pura convivencia comunitária, onde de fato as pessoas se encontram para tudo e qualquer coisa: namorar, passear com os cachorros, soltar as crianças para correrem, vender doce, tirar a sorte com o realejo, se embebedar e dormir nos bancos, se vestir bem alinhada e sair com as amigas para paquerar, se sentar nos bancos para ler, ir com o grupo encenar um texto de teatro, ir com os amigos oferecer abraços gratis, enfim, aquela coisa maravilhosa que infelizmente não temos em nossa cidade Natal. E ai fiquei com o maior despeito. E lastimei por existirem shoppings center. Esse ai é o coreto da praça, enfeitado com os graciosos papéis picados, como eles chamam esse tipo de bandeirinha.

Nesse Parque há uma sorveteria imperdível: a Tepoznieves. Só a decoração já vale uma visita: mais mexicana impossível. E os sorvetes artezanais tem nomes lindos como “Arrullos de Luna”, “Besos de Angel”, “Reina de la noche”.

Enfim, Coyoacan nos surpreendeu. E minha mais grata surpresa foi encontrar no nosso caminho, na Calle Francesco Sosa, uma lindinha loja de lãs. E olha o nome: “Club de la Araña”. Infelizmente (ou felizmente?) estava ja fechando.

Uxmal e Kabah

E fomos conhecer o segundo (ou primeiro, para alguns) sítio arqueológico (favor não dizer ruína, eles não gostam) de Yucatan: Uxmal. Tomamos um tour de um dia (cobram 425 pesos por pessoa ou algo em torno de 37 dólares) e viajamos 1 hora e meia até lá. É um lugar menor e muito mais organizado do que Chichén Itzá. Não há vendedores de bugigangas pelo meio do percurso, tem muito menos gente e mais árvores pra fugirmos do calor fustigante. As construções apresentam mais detalhes, fazendo parte da arquitetura Puuc.

Aqui consegui ver, o que não vi em Chichén por causa do calor: o campo do jogo de pelota. É uma coisa interessante e meio frustrante: não se consegue saber como as coisas aconteciam aqui de fato. O jogo de pelota, por exemplo. Há controvérsias sobre se se matava ou não o time perdedor, se se matava o time ganhador, se se matava o que fazia o gol, ou se não se matava ninguém. O que se informa é que a bola tinha que atravessar o circulo, mas não se podia usar pés ou mãos. O propósito de cada construção também é uma coisa que ninguem sabe ao certo. Os guias nos dão todas as informações sobre as construções, mas não do que acontecia nelas.

O lugar é repleto de camaleões (iguanas), alguns enormes, que se mimetizam perfeitamente com as pedras locais.

Kabah é um outro trecho da rota Puuc, que fica a alguns poucos quilômetros de Uxmal. A estrada que se construiu e que passa por lá destruiu mais da metade do sítio, e ai sobraram apenas 2 edificações.

Mérida, cidade da música

Na verdade Mérida é uma cidade voltada para as artes. Somente na rua 60 existem 2 teatros em quarteirões seguidos e muitas galerias de arte. Super comum voce ver pessoas passando com instrumentos musicais em seus estojos, como se fossem ou viessem de alguma aula. Em duas noites que voltamos pela Plaza Santa Lucía, por volta das 10 da noite, havia um grupo de jovens ensaiando um tipo de dança.

Nos finais de semana é preciso se preparar, porque há quase que uma virada cultural: coisas acontecendo em vários pontos da cidade. Na sexta-feira assistimos uma seresta, que acontece desde o ano de 1962. Lindo! Uma orquestra tocando e um senhor idoso cantando boleros.

E não é coisa para turista, não. Quem assiste são os da cidade mesmo. Depois dos boleros, vimos a apresentação do grupo de dança da Universidade de Yucatan (uma das 3 que existem na cidade), com apresentação de jaranas, a dança típica daqui. Todas essas apresentações são grátis, ao ar livre, num ambiente bem familiar.

No domingo a coisa vira uma festa total. A rua lateral a Plaza Santa Lucía é fechada para o tráfego e se transforma em uma enorme pista para bicicletas. Essa rua liga a Plaza Sta. Lucía a Plaza Grande (ou Zócalo), ai, enquanto na Plaza Grande acontece feira de artesanatos, barracas de comidas, brincadeiras em um palco, no outro lado está acontecendo um animado baile popular. Isso mesmo, as pessoas vão lá para dançar boleros, merengues, salsa e os ritmos típicos daqui. Acreditem: vimos isso por volta das 10 horas, mas quando voltamos, por volta das 2 da tarde, com um sol de rachar e 39 graus de temperatura, as pessoas continuavam dançando. Fantástico!

Era meio dia, com o calor peculiar, e olha a fila de gente pra entrar no teatro! E, vejam, nenhum tem cara de turista.