Batendo perna pela redondeza: Batalha e Nazaré

Alugamos um carro e fomos conhecer a vizinhança. E quando digo vizinhança, quero dizer quase cruzar o país todo, porque é tudo muito perto. Tomar está no centro de Portugal, mas você dirige por menos de 80 Km, em estradas fantásticas, chega à Nazaré, que é praia do Atlântico. 

Além das autoestradas perfeitas, bem sinalizadas e amplas, existem as vicinais, muito boas também, com a vantagem de ter menos trânsito e passar por dentro de aldeias encantadoras. Por um feliz erro na interpretação do GPS pegamos uma dessas. E foi ótimo. Paisagens lindas e cidades com nomes que nem é possível imaginar, como Reguengo do Fetal e Paialvo.

Nosso objetivo inicial era irmos a Batalha e Alcobaça, mas fomos convencidas por um cara em Tomar a irmos até Nazaré, porque era uma cidade típica portuguesa, com senhoras vestidas de preto como antigamente. E aí fomos.

Mas primeiro paramos em Batalha, uma cidade da qual eu nunca tinha ouvido falar até um amigo nos contar de suas andanças por Portugal e nos recomenda-la. Como um todo Batalha é uma gracinha de cidade, mas o ponto alto é o seu Mosteiro e a Igreja de Nossa Senhora das Vitórias, construída em torno de 1.300. Gótica, gótica (e não tardo gótico), a igreja surpreende pela altura de 33 metros do piso ao teto, a ausência de imagens (exceção ao altar-mor) e a beleza simples de suas arcadas. 


Ao lado da igreja está o mosteiro também muito bonito. Nele há uma sala com imensa abóbada, onde está o tumulo do soldado desconhecido, guardado por militares, que, ridicularmente não nos deixam aproximar do tal túmulo. E o ridículo foi maior porque no exato momento em que estávamos lá houve a “troca da guarda”. E lá vem 3 soldados em passo de ganso nazista, com bionetas caladas, compenetrados, coitados. Sai de perto pra não cair na risada, porque eram uns meninos novinhos com aquela compenetração de quem está fazendo algo muito importante. Tadinhos.


E aí pegamos o carro e seguimos para Nazaré pela autoestrada. Nazaré é o seguinte: uma praia enorme (que me lembrou Mucuripe, em Fortaleza), com turistas, restaurantes e lojas de souvenir, e um barranco enorme onde fica, obviamente,  parte alta da cidade. Na praia não vimos nada de interessante. Subimos e o interessante é a vista da praia. Ou seja, nada. 


A pracinha do alto seria até interessante se não fosse as trocentas lojas de bugingangas e outras tantas barracas vendendo comidas por umas senhoras de meia idade, que ao invés de roupas pretas (como nos havia sido dito), usavam uns aventais supercoloridos e curtos, quase uma mini-saia. 


Já deu pra perceber que não gostamos. Demos uma olhada e fomos embora pegar a estrada de volta pra casa.

Tomar, a cidade

Claro que não vale a pena visitar uma cidade com tanta história pra se hospedar na parte moderna. Porque Tomar tem sim uma parte moderna. Podemos dizer que o rio Nabão divide a cidade em sua parte histórica e sua Marte moderna, apesar de ainda encontramos do lado novo o Mercado Central, que não é tão novo, mas é muito legal. 

Então vamos falar da parte antiga, a que fica aos pés do Castelo dos Templários, de modo que pra onde a gente anda, lá está ele a nos acompanhar. A parte central é aonde está a Igreja de S. J. Batista de um lado e a Prefeitura do outro. É uma enorme esplanada com cafés simpáticos e algum comércio. Mas é nas ruazinhas estreitas que saem dessa praça que esta o comércio mais diversificado, sobretudo na Rua Serpa Pinto, onde estão lojas e bons restaurantes. Nos impresssionou o número de cabeleireiros, praticamente um a cada dois quarteirões, com exagero e tudo.


Achamos as coisas em Tomar bastante baratas, em relação a outras cidades portuguesas. Pode-se comer bem a 8 euros o prato e beber um bom vinho regional por 5 euros. Em um restaurante meio chiquitoso, tomamos um bom minestrone por 2,50 euros! 

Além do Castelo e do Convento visitamos o Museu do Fósforo. Aprendi que chama-se filuminismo a dedicação a esse tipo de coleção. O museu é interessantíssimo. Tem mais de 40 mil itens, de todo o lugar que você possa imaginar, desde Portugal, onde havia uma Fábrica Nacional de Fósforos, até países orientais e africanos. Claro que fui procurar na estante dedicada ao Brasil os que conheci na minha infância: Pinheiro e Beija Flor. E estavam lá! Mas, para mim, os mais lindos foram os franceses. Enfim, para quem curte coleções, essa é imperdível. 


No mesmo pátio há uma oficina de azulejos, com exposições e artigos para vender, mas não achei nada de muito extraordinário.

Da mesma maneira é a tal Sinagoga, que está em todos os guias como local a ser visitado. Não vá, não vale a pena. Trata-se de um salão quadrado, com uma falsa abóbada, algumas cadeiras é um altarzinho na frente. Se quiser ir, chegue na porta, olhe e você já viu tudo. Nem foto merece.

Em Tomar alugamos um carro e fomos bater perna pelas cidades próximas, mas isso é assunto pra outro post.

Tomar, pelos caminhos dos Templários 

Poderia ser mais uma cidadezinha com um centro histórico lindo, becos e ruelas simpáticos e um povo gentil. Mas é em Portugal e aqui as coisas não são assim tão sem história. Em princípio Tomar é isso, uma cidade no centro do país, na região do Ribatejo, com cerca de 20 mil habitantes, um Centro Histórico separado da parte mais moderna da cidade pelo rio Nabão. Aí você chega em frente à igreja de S. J. Batista, olha pra uma colina na sua frente e lá estão as muralhas do Castelo dos Templários.

Habitada pelos mouros, no Século XII Tomar foi retomada pelos portugueses, que a doaram a Ordem dos Cavaleiros Templários. Um dos grão mestre da Ordem foi o Infante Dom Henrique (aqueles das navegações), que aqui realizou o planejamento das incursões marítimas de Portugal para terras de além mar. O que significa que, de alguma maneira, devemos o descobrimento do Brasil a Tomar e aos Templários.

A Ordem foi extinta no Século XIV e os Cavaleiros mortos ou presos, mas em seguida surge uma tal Ordem de Cristo, que ocupa todo o espaço da antiga, muito provavelmente suas riquezas e influências políticas.

Hoje do Castelo dos Templários restam as muralhas, de onde se tem uma vista linda de toda a cidade; mas dentro das muralhas está o Convento de Cristo, esse sim, ainda bem preservado e muito bonito, no seu estilo tardo gótico manuelino (adorei essa descrição do estilo). É uma construção imensa, daquelas que você poderia se perder se não fosse bem sinalizada, com alas do claustro dos noviços, quarto para os nobres, salões de reuniões e, me chamando a atenção, uma salão imenso onde eram feitos e armazenados os azeite de oliva. Haveria também a adega dos vinhos, mas não encontramos. 



Na construção a maior atração é a janela manuelina, imensa, com uns 3 metros de altura e completamente ornamentada com detalhes típicos do período manuelino, com suas formas exuberantes (ele também foi chamado de “estilo flamejante”), incorporando elementos religiosos e populares. 


O outro destaque é a Charola da igreja. Como eu não sabia o que era charola, vou dizer pra vocês: pode ser andor de procissão, mas, no caso, é uma construção circular que fica entre o átrio e o altar. Nesta charola do Convento não consegui perceber o altar mor, de modo que me deu a impressão de que a igreja toda era a charola, porque só ela é decorada, com pinturas e esculturas de santos, decoração em ouro nas colunas e teto. É muito bonita porque não é aquela coisas exagerada, cheia de ouro que constumamos ver em outras igrejas. Talvez porque D. Henrique ainda não tinha chegado para colonizar a África e o Brasil e roubar nosso ouro.


Depois de tanta andada, vale a pena sentar nos jardins do Castelo, com seus pés de laranja e ciprestes e ficar vendo o tempo correr e imaginando que mesmo depois que você se for, aquelas muralhas continuarão ali. 

Nos sentindo quase em casa, chegamos a Lisboa

A-MA-MOS Lisboa!!! De coração. Uma pausa aqui antes de retornar ao Brasil é praticamente obrigatória. Adoramos a comida, adoramos os vinhos verdes, adoramos o povo e a maneira como falam um português que, muitas vezes, mal entendemos.

Ficamos sempre em um hotel (o Borges) no Chiado, pegamos um quarto que dá para a frente e nem precisamos sair de casa para ouvir show de jazz, banda caboverdiana, música clássica, o sino da igreja tocando, o burburinho do povo no café “A Brasileira”, tá tudo ali aos nossos pés. Muitas vezes dançamos dentro do quarto ao som rebolante dos africanos. É divertidíssimo!

Uns passinhos e estamos no Rossio, na Praça do Comércio, tomando uma ginjinha na Baixa, comendo um porco na Casa do Alentejo. Menos passinhos ainda, somente descendo uma pequena ladeira, e temos lojas de todo tipo e poder aquisitivo. Tem uma H&M, mas entramos em uma loja que tinha uma parka de uma mesclita tipo jeans, que custava 229 Euros. Nem olhamos pro nome, corremos com medo de ter que pagar a olhadela.

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Lisboa para nós, seus irmãos temporãos, é como uma viagem ao passado. Descer ao Rossio e ver uma loja de 1800 e tanto que ainda está lá e vende chapéus, luvas e suspensórios, dobrar na rua da Conceição e encontrar um quarteirão cheio de armarinhos como os de antigamente, vendendo botões, sianinhas, galões, bicos de renda, com balcão de atendimento e mostruários bagunçados, abrir a janela do quarto do hotel e se deparar com uma loja chamada “Paris em Lisboa”, gente, é muito, muito, muito legal. Isso tudo sem abrir mão de ter, na rua do Carmo (a dois passinhos do nosso Hotel), uma big loja da Apple, com a tecnologia mais moderna. Demais!!!

Por essas e outras é que amamos Lisboa. E que prá cá sempre voltamos. Alimento o sonho de viver aqui uns tempos. Quem sabe?

Em Lisboa, já com um pé no Brasil

E ficamos 2 dias nessa cidade que amamos de todo coração. Lisboa nos dá uma sensação de familiaridade, como se a gente já estivesse em casa. Gostamos muito, muito mesmo daqui. E desta vez tivemos dois motivos adicionais para aumentar nosso amor.

Primeiro foi reencontrar minha amiga-irmã Albertina, que nos apresentou duas amigas maravilhosas: Edite e Elisabeth, essa última uma psicóloga brasileira que vive em Lisboa a tanto tempo que já tem o sotaque completamente portugues. E elas nos levaram para jantar em uma cidadezinha a 30km de Lisboa chamada Arruda dos Vinhos. Foi ótimo! A turma tem o melhor daquele humor portugues que eu tanto gosto. Divertidíssimas!

Depois foi o Hotel Borges. É a segunda vez que me hospedo nesse Hotel, que está no coração do Chiado, quase vizinho ao “A Brasileira”. É um hotel simples, mas super bem localizado, porque o Chiado é tudo de bom em Lisboa. Nosso quarto tinha uma varandinha que dava pra o buchicho todo e todas as noites fomos agraciadas com um evento cultural, shows de musica que assistiamos sem sair de casa.

O melhor deles foi de um grupo de Cabo Verde chamado Guents dy Rincon, com uma música tão contagiante e tão boa, que dava vontade de dançar. Gravei uma parte do show. Infelizmente ficou escuro, mas vejam que som.

Évora em 2000

20.09.00 – Hoje é o aniversário do meu filhote, que está em Noronha com o pai e eu não consigo falar! Desespero.

A viagem para Évora foi tranquila e rápida (são 135 km de distancia). Sobreiros (árvore da cortiça) por todos os lados na estrada. Em Évora, estação rodoviária nova, inaugurada ano passado.

Hospedadas na Pensão Giraldo, rua dos Mercadores (7.900 escudos por um quarto duplo, com 2 camas de casal e um banheiro imenso), no meio da parte histórica da cidade. A um passo de tudo e mais alguma coisa, como dizem os portugueses. terceiro andar, sem elevador, subir com as malas foi pesado.

Vista da janela do quarto

A cidade é linda e histórica. Há uma praça central linda, onde acontece as coisas. Ótima para se ir à noite. Fiquei completamente atônita quando vi que a Universidade foi fundada em 1536. O Brasil era ainda uma terra papagalis e Évora já tinha Universidade. Fantástico! Fiquei tambem embasbacada com o Templo de Diana, construido pelos romanos. Demais!

Templo de Diana

Uma outra coisa interessante é a Capela dos Ossos. Fiquei impressionada. Nunca pensei que houvesse uma coisa assim, uma capela cujas parede, teto e piso são feitos de ossos humanos. É uma coisa meio macabra, meio idade média, sei lá. Me incomodou.

Capela dos ossos
Capela dos ossos

O Congresso está sendo igual a todos: trabalhos vazios, genéricos, “deslumbrados” ou “marqueteiros”. Desorganização total. Ninguem consegue informações sobre onde, como, que horas…

Marta e eu no pátio da Universidade de Évora

Algumas informações úteis (validas no ano 2000, mas hoje apenas com valor histórico)

  • Cafezinho —-> 75 escudos
  • Metro ——-> 100 escudos
  • Ônibus ——-> 165 escudos
  • Vinho da casa ——> 700 escudos
  • Malboro ———> 390 escudos
  • Prato em restaurante simples —–> de 1.200 a 1.700 escudos
  • PF no Primo Basilio ———-> 800 a 900 escudos

Lisboa em 2000

18.09.00 – Uma manhã inteira andando para resolver a ida para Évora. Passagens compradas no terminal de auto-carros, no Arco Cego, perto do Metro Saldanha. Preço: 1.4000 escudos.

Tomamos o metrô até o Chiado, um café n’A Brasileira. Descemos a pé até a Praça da Figueira e comemos por ali mesmo. Nada digno de nota. Jantamos na casa de Tina, com Steve e Cristina, seu filho e nora. Ótima noite! Na volta prá o Hotel. Uma passada por Mirasintra, onde fica a casa de Cristina.

19.09.00 – Chico Zé aparece logo cedo às 8:30. Todo elegante de “fato e gravata”. Conversamos, almoçamos no Primo Basilio que fica vizinho ao Residencia Alicante, o hostal onde estamos hospedadas. Chico tras seu album de fitas e essa é uma história à parte. Já na casa de Tina havíamos sido apresentadas a esta reliquia tradicional portuguesa. São fitas coloridas, largas, de cetim, cujas cores indicam categorias. Essas fitas são organizadas em um álbum depois que o aluno se forma, mas durante o curso ele as usa presas ao manto negro usado nas solenidades. De acordo com as cores tem as da Universidade, as do curso e outras escolhidas para caracterizar parentes, amigos, namoradas, etc. O formando pede às pessoas que escreva alguma coisa em uma fita e ao final elas são guardadas com todo amor e carinho nos ditos albuns de capa de couro. É interessante… Ah! há uma solenidade que reune todas as Universidades, onde a autoridade religiosa benze as fitas. No momento em que a Universidade é nomeada, os alunos agitam suas fitas, fazem bagunça, enquanto os outros vaiam. Hum… cada qual com seu cada qual. 

O diferencial do vinho do Porto

Acho que todos sabem que é o balanço dos barcos que trazem os barris do mosto da uva para Gaia que dá o sabor típico do vinho Eu tinha ouvido essa história e agora vi como é esse transporte. Olha ai

Minha duvida é se isso não está ai apenas para que turistas trouxas como eu, acreditem na lenda.

By the way, aprendi que vinho do Porto não é só tinto ruby e twany. O branco seco é infinitamente melhor.

Vila Nova de Gaia é o Porto do vinho

No nosso último dia no Porto fomos a Vila Nova de Gaia. Tomamos o Metro, atravessamos a Ponte e começamos a descer ladeira. A ideia era entrar em uma cave,  fazer uma degustação e aprender mais sobre o vinho do porto. Bad ideia! Era domingo… Tudo lotado de turista, o transito engarrafado, os garçons sem condições de atender todo mundo… enfim… Resolvemos bater perna por ali mesmo. E registrar esses cartões postais: a Ribeira do Porto, patrimonio da humanidade.