O estranho “comunismo” do Vietnam e Laos

Tanto o Vietnam quanto o Laos se dizem países comunistas. O Vietnam tem no seu nome oficial o Republica Socialista e o Laos, Republica Democrática Popular, no entanto, apesar de não se chamarem oficialmente comunistas, em todos dois os guias locais falam que o regime de seus países é comunista.

Desde nossa chegada a Saigon fiquei procurando o “comunismo” deles, e nem socialismo achei. Afora as bandeiras vermelhas com a foice e o martelo, presentes em praticamente todo canto, nenhum sinal externo de socialismo. Saigon e Hanoi são cidades onde as grandes corporações capitalistas estão presente. Do HSBC ao Kentucky Fried Chicken, tem de tudo.

Ao nos contar a história do Vietnam, nossa guia local nos falou da dominação francesa, da Indochina, da eterna briga com os chineses e, obviamente, da guerra com os Estados Unidos. E que mesmo terminada essa guerra, eles continuaram pelejando com o Cambodja até 1989. Assim, um Vietnam realmente livre é um país muito novo.

Mas os contrastes são imensos. Ao lado do nosso hotel moderníssimo, encontramos senhoras limpando peixe nas calçadas e os cozinhando ali mesmo. O incrível número de motos convive com vendedoras de verduras com os clássicos cestos pendurados nos ombros.

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A cultura milenar da plantação de arroz
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Produção de papel de arroz usado para os rolinhos primavera

É claro que eu tinha que perguntar à guia onde estava o socialismo do Vietnam. Ela sorriu e nos falou que eles eram, na verdade, um “capitalismo vermelho”, seja lá o que isso signifique. Que o país precisou abrir sua economia, como forma de impulsionar o desenvolvimento, combalido pelos anos de guerra. Bom, mas pelo menos as políticas sociais são públicas, não?, perguntei. Saúde, educação, transporte, moradia? Ela sorriu mais uma vez e explicou que existe um sistema de saúde pública muito precário, o mesmo se aplicando à educação. O que funciona de verdade e fortemente é o setor privado.

Essa guia havia vivido vários anos em Cuba e quando eu pedi para que ela comparasse o socialismo cubano com o vietnamita, ela não teve dúvida em dizer que o vietnamita era muitíssimo melhor. Tive vontade de dizer que era porque Cuba era socialista e o Vietnam, não. Mas me contive.

O mesmo ocorre no Laos, que seria, um tipo de comunismo capitalista budista. Apesar de ser um país menor que o Vietnam, as condições de funcionamento do Estado é exatamente o mesmo. Não há políticas sociais significativas e há a presença muito forte do capitalismo. Como há muita pobreza, fiquei pensando que um Bolsa Família melhoraria muito a vida daquele povo.

 

 

Baía de Halong

A baía de Halong é o lugar turístico mais visitado do Vietnam. Com certeza todos nós já vimos alguma foto de um mar cheio de enormes rochedos saindo da água. Fica numa região que está a 4 horas de ônibus desde Hanoi. Uma viagem, mas que super vale a pena porque o lugar é lindíssimo.
Nós, que se fomos pobres não nos lembramos, alugamos um barco somente pra nós, com 6 maravilhosas cabines e as refeições incluídas, porque pernoitamos no barco. Mas, como nem tudo é perfeito, o clima conspirou contra nós. Fazia frio, ventava muito e o céu esteve todo tempo carregado. Havia sido planejado uma parada em um praia para um banho de mar, mas quem se arriscaria? 

  
Mesmo sem sol e céu azul a baía é linda. E o nevoeiro e o céu carregado deram um ar muito interessante ao passeio, tipo Agatha Christie. Felizmente não havia mordomo à bordo.

  
  
Navegamos até determinado ponto, eu deitada na minha cama, vendo as ilhas-rochedo passarem através do janelão da cabine. Oh, delicia!! E fomos conhecer uma das inúmeras cavernas que existe, por ali. Passamos de nosso barco para um bote pequeno, à remo, e rumamos para a tal caverna, que é um “bocão” enorme, como um túnel, que vai dar num lago interno deslumbrante. 

  
  
Claro que ao nosso lado haviam muitos outros botes, mas me chamou atenção o fato de que quase a totalidade deles serem conduzidos por mulheres remadoras. De pé, na proa do barco, elas vão dando braçadas fortes. E elas são magrinhas e pequenininhas! Uma delas remava com o filho pequeno sentado bem comportadinho ao lado dela. Que mulheres bravas, viu?

  

As marionetes de água de Hanoi

Um espetáculo único em Hanoi é o dos marionetes da água. Quando a guia nos falou
eu não conseguia imaginar como seria isso, porque pra mim marionete são aqueles bonecos que se controla com fios nas mãos. Seriam bonecos submersos? Seriam bonecos recheados com água?
Quando entramos no teatro vemos um cenário de uma fachada de uma casa vietnamita, com portas de bambus fininhos, e diante dela um enorme lago. Lago de verdade, com água mesmo. Quando o espetáculo começa é que fui entendendo: os bonecos atuam nesse lago e são controlados por pessoas que estão por trás das portas da casa, através de enormes varas horizontais, na ponta das quais estão os bonecos. 
  
  
  
Nas laterais do palco dois conjuntos de músicos e cantoras vão entoando canções que, imagino eu, tenham a ver com a cena que se desenrola com os bonecos. É muito interessante, imperdível mesmo. 

Hanoi, capital do Vietnam

Hanoi foi sempre capital. Quando era Indochina, quando era Vietnam do Norte e depois da reunificação. No entanto tem a segunda população, sendo Saigon a primeira. Talvez por essas coisas todas, Hanoi tenha me parecido mais tranquila, ou melhor dizendo, menos agitada. Aqui também a quantidade de motos é imensa, naquela proporção maluca de quase uma moto para cada habitante.
Um dos nossos passeio foi visitar o mausoléu de Ho Chi Minh. Filas tão imensas que não nos atrevemos, mas há parques ao redor, o palácio da época dos franceses e as casas onde viveu Ho. Ele não quis morar no palácio e resolveu viver na casa de um eletricista, que – oh coincidência! – é do lado do palácio. Depois mudou-se para uma casa de arquitetura vietnamita, também nos jardins do palácio, para a qual ele não quis nenhum luxo, apenas que tivesse um quarto para si, e outro para seu general. Como ele nunca se casou… Sei não…

  
Brincadeiras à parte, o Ho é simplesmente venerado por aqui. Há tantas histórias sobre o seu desprendimento, seu amor pelo país, sua formação europeia, que a gente pensa que é quase um santo.

A quase totalidade dos visitantes é de nativos, ou de orientais, já que para nós é quase impossível distinguir, apesar de nosso guia ter nos mostrado algumas diferenças que depois eu conto.
Basicamente a cidade é dividida em uma parte antiga, onde está o comércio popular, e o bairro francês, com avenidas largas e construções bonitas, hotéis e lojas alinhadas. Mas bom mesmo é o popular. Comércio, lugar de comer, lugar de consertar moto, de vender eletrodomésticos, tudo junto e misturado. Mas o que mais me chamou atenção foram as calçadas. Calçadas são lugares para: estacionar moto, vender comida com banquinhos baixinhos pro povo sentar, consertar motos, soldar tubos (que não sei pra que servem), enfim, serve para qualquer coisa, menos para se andar. O povo anda pelo meio da rua, disputando espaço com as motos, os carros e os triciclos. E se você está sentada no triciclo, você sente a emoção de estar no meio do trânsito. Divertidíssimo. Teve momento que fechei os olhos esperando a batida. Mas é impressionante que não há acidentes. Parece haver um acordo telepático entre eles que dá tudo certinho.

Um outro lugar bastante bonito é o Templo da Literatura, que é um conjunto de parques em sequência, dedicado ao resgate do idioma original vietnamita, antes que os franceses os obrigassem a usar o alfabeto ocidental. Há também homenagens aos grades poetas e escritores. E o último dos parques é um templo a Confúcio, onde também vimos oferendas as mais diversas. Na foto abaixo, a bandeira colorida é a original do Vietnam, antes do regime comunista. Ela tem as bordas recortadas para dar a impressão de movimento mesmo quando não há vento.

  
  
Mas, o mais interessante nesse parque é que ele é usado como espaço para fotos dos recém graduados, seja do secundário, seja das universidades. É muito engraçado. As meninas posado com sua becas ou com suas melhores roupas, cada uma mais lindinha só que a outra.

  

Danang, a terceira cidade do país 

Para ir  de avião a Hoi An, aquela cidadezinha charmosa com lanternas, tem que necessariamente passar por Danang, a cidade do maior dragão do mundo. Sim, porque eles aproveitaram a estrutura de uma ponte e estilizaram um dragão em toda a sua extensão. Ficou legal. Assim, Hoi An é a cidade da ponte com o dragão.


É  nessa cidade que fica o aeroporto, e no dia que saímos fizem um bonito passeio por ela, já que nosso voo só saía às 10 da noite. E fomos conhecer um pagode onde está uma estátua de uma Buda mulher, e fica em cima de um monte de onde se avista toda a cidade. Até então eu sabia que pagode era uma construção de vários andares, com aqueles telhadinhos com as pontas viradas.

O que visitamos foi um conjunto de prédios de um andar só, com pátios e jardins entre eles, e em cada um desses lugares com suas estátuas de Buda em diferentes estilos. O lugar é lindo, mas a Buda mulher é uma estátua de mármore enorme no alto do morro, que nos lembrou aquela estátua da Nossa Senhora não sei de que, que têm um Santa Cruz do Inharé. Muito feio, tanto aqui, como lá. Mas os templos são lindos, ricos, com oferendas que vão desde dinheiro até latas de cerveja, caixas de biscoitos, pães.

Hoi An, a fofa

Hoje estamos em Hoi An, que fica na região central do país, mas à beira mar. Sei que vai ser complicado gravar os nomes das cidades daqui pra frente, a não ser aquelas mais conhecidas, por isso vou tentar identificar Hoi An como a cidade fofinha das lanternas.

Porque ela é mesmo um charme. Pequena, cheia de resorts bem mais ou menoszinhos (pra não dizer padrão A) na beira mar, tem, no entanto, uma praia impraticável. Eu, toda tchuns pra vestir meu maiô e sair desfilando o meu plus size, nem me animei pra vesti-lo desde que o guia disse que o mar avançou e criou barreiras na beira da praia e que é muito perigoso entrar, porque afunda muitos metros logo na beira. Eu, heim? Sair do meu Nordeste pra me afogar no Índico, nem pensar. 

Rumamos para o centro da cidade. Visitamos um local de produção de seda e vimos as minhoquinhas comendo as folhas de amoreira, depois se formando no casulo e por fim a produção e a tecelagem da seda e todos os seus tipos, a depender da urdidura do fio. Mas, gente, o mais impressionante nessa oficina é o trabalho das bordadeiras. Elas fazem verdadeiras obras de arte. Infelizmente não nos deixaram fotografar as obras prontas, mas são coisas belíssimas, que você pode jurar que é fotografia.

  
A cidade tem uma forte influência chinesa na arquitetura e gastronomia, mas há uma linda ponte coberta feita pelos japoneses e belas mansões francesas. E milhões de restaurantes, bares, cafés, lojinhas de roupa, sapatos e bolsas, pérolas e bugigangas em geral. Fez a alegria da moçada. A minha inclusive. As ruas são enfeitadas com lanternas coloridas, que dá um ar muito especial

  
  
  
O mais lindo é o anoitecer, quando as lanternas se acendem e vendedoras oferecem umas velas em um tipo de suporte, para ser colocado no rio, que fica todo iluminado. Coisa mais linda! Ficamos em um bar de frente pro rio, tomando uma Saigon Lager, vendo o povo passar e as lanternas lentamente se acederem e foi muito bom.

  
  
Hoi An é uma cidadezinha pra se ficar uns 3 dias, relaxando. 

Saigon, a cidade das scooters

É impressionante, a cidade de Saigon tem 9 milhões de habitantes e 7 milhões de motos. A primeira vez que vi a multidão de motos pensei que era uma manifestação contra ou a favor de alguma coisa. Que nada, é assim o tempo todo, em todo canto. E o mais interessante é o trânsito. Quase não há semáforos, as faixas de pedestres são somente decorativas, como nos disse o guia logo no primeiro dia, e não há nenhum acidente! Todo mundo cruza prum lado, pro outro, para no meio do cruzamento, espera o pedestre passar, tudo na santa paz. 

  

Saigon é uma cidade sem uma arquitetura definida, em parte pelas inúmeras colonizações, em parte porque está livre e independente há pouca mais de 20 anos. Sim, porque depois que terminou a guerra com os EUA, eles começaram outra guerra com o Camboja, que foi de 1975 a 1989. Então ainda é muito precária, apesar de ter uma economia completamente aberta ao capital estrangeiro, ao ponto de ser chamada de “capitalismo vermelho”. Há um presidente decorativo porque quem manda mesmo é o secretário geral do Partido Comunista. Mas é possível encontrar, junto às torres de vidro e aço, construções do tempo colonial francês muito bonitas.

O povo é uma gracinha. Pequenos, magrinhos e extremamente gentis. E eu não sei como podem ser tão magrinhos, porque o café da manhã é um absurdo. Tem sopas, arroz de vários modelos, verduras, carnes, peixes, além das coisas ocidentais de todos os hotéis internacionais. O café da manhã é, não um pequeno almoço como dizem os portugueses, mas um grande almoço. E eles comem mesmo. Prato de trabalhador. 

Desde o aeroporto de Saigon começamos a ver pessoas com máscaras tipo cirúrgicas no rosto. E ficamos especulando: estão gripados? Tem poluição? Depois observamos que a coisa faz parte da vestimenta, principalmente das mulheres. Mas vai mais além, elas não somente cobrem o nariz, mas usam luvas, mangas compridas, meias grossas. Às vezes o troco que cobre o nariz tem um pedaço que desce e cobre o pescoço. E aí descobrimos: elas não querem tomar sol, ser branquela é o maior valor de beleza. Agora imaginem um calor de 30 graus, um sol abafado, e aquelas mulheres todas empacotadas! Só em olhar o calor aumenta.

  
 

experimentei uma pra ver se conseguia respirar. não consegue.
 

A cidade é cheia de parques. Nosso hotel ficava em frente a um deles e foi delicioso ver logo cedo, de manhã, um monte de gente fazendo ginástica lá. Não era correndo, nem caminhando, era fazendo ginástica ou dançando. Interessantíssimo! Em grupos, sozinhos, em duplas, não importa. 

  
  

A outra História do Vietnam

Ontem tivemos um dia de aula sobre a história do Vietnam. Afinal, o que sabia eu do Vietnam? A guerra do Vietnam, claro. O que os filmes nos mostraram, e aí desde Apocalipse Now até Corações e Mentes, o que conseguíamos ler nos jornais, lembrando que na época vivíamos a ditadura militar. Mas a guerra do Vietnam com os EUA, foi apenas uma da inúmeras que esse país tão pequenininho enfrentou. Ah, também sabíamos da colonização francesa, quando isso aqui era chamado Indochina.

Esse pequenino aqui já foi colônia japonesa, já foi invadido pelos chineses, pelos franceses, pelos mongóis. Mas sempre cuidaram de manter a sua identidade, os seus costumes e suas tradições. É sempre lutaram contra os invasores. Bom, eu não vou aqui reproduzir a aula que tivemos, mas cito coisas que eu não sabia: a Indochina, colônia francesa, abrangia além do Vietnam, o Laos e o Camboja; ainda sob o domínio francês, o país já era dividido em norte e sul. O sul era chamado Con Chin China. 

Depois de mais de uma hora de História, chegamos ao lugar que íamos visitar: o distrito de Cu Chi e os túneis da guerra contra os norte-americanos. Uma coisa impressionante. A ideia era criar uma frente de luta próxima a Saigon, que era governada por um cara títere dos EUA. E aí eles aproveitaram alguns metros de túneis que já existiam do tempo da guerra contra os chineses e ampliaram de 400m para 200km de túneis, construídos com uma precisão e criatividade invejável. Porque não eram somente túneis. Embaixo da terra (que podia chegar a mais de 12m de profundidade), havia cozinha, dormitório, salas de reuniões, de fabricarão de armas, enfim, uma verdadeira cidade guerrilheira sob a terra. Para se ter uma ideia, para que a fumaça da cozinha não os denunciassem, eles criaram um sistema de quatro câmeras por onde a fumaça ia passando e resfriando até chegar a superfície.

 

Demonstração do sistema de tuneis
 
E chega uma hora do percurso em que você é convidado a entrar em um dos túneis. E a maluca aqui, tentando desafiar sua claustrofobia, resolveu entrar. E é o seguinte, você começa com a cabeça abaixada, desce uns degraus e tem que ficar agachado e ir andando assim, pelo escuro. Aí tem um momento em que tem que andar de cócoras. Pense! Eu, com a mochila nas costas e ela raspando a parede em cima. Maior medo de ficar entalada naquilo e nunca mais sair. Foram 20 metros, mas a mim me pareceram 2 horas. Quando vi a luz do dia e respirei ar puro, que felicidade, estou viva. Mas banhada de suor. Achei ruim? Não, achei massa. Foi “com emoção”.

 

Andre, nosso anjo da guarda, entrando em um túnel
 
 
uma entrada mais larga, semelhante a que entrei
 
 
as entradas de ar eram camufladas com formigueiros
 

Saigon, rio Menkog

Enfim consegui destrinchar a confusão Ho Chi Minh ou Saigon. Nosso guia hoje nos informou que o nome Saigon é muito antigo, vindo dos ancestrais, por isso a gente da cidade a chama assim, enquanto que os de fora (de outras províncias) a chamam Ho Chi Minh, ao ponto de se alguém se refere à cidade com esse nome, os nativos já sabem que é algum “estrangeiro”. Ele particularmente acha o nome Saigon “mais elegante”. E como eu acho também, chamarei Saigon e esquecerei o Ho.

Ontem estivemos passeando pelo rio Merkong, que fica em uma província vizinho a Saigon, distante um pouco mais de uma hor de ônibus. O atrativo dessa região é a produção e o beneficiamento do côco e o objetivo do nosso passeio era justo mostrar esse trabalho, que se dá em condições bem precárias, pela população ribeirinha. 

Mas antes de chegar ao rio, nossa guia, falando num espanhol estropiado, nos diz que vamos conhecer uma fábrica artesanal de ladrilhos. Logo nos animamos. “Hum, deve ter ladrilhos legais. Vou levar uns”. Aí paramos e haja a andar no meio de um monte de tijolo. E ela entusiasmada, contando como se fazia e tal. Um tempo depois a idiota aqui percebeu que ladrilho é tijolo em espanhol. Perdi a graça e não quis mais ver aquele monte de poeira.

    
Tomamos um barco a motor, com o barulho que me lembrou muito as barcas da Redinha, e seguimos rio acima, numa região muito bonita, cheia de bambus e palmeiras. Durante todo o passeio não consegui parar de pensar em Apocalipse Now, imaginando os yanques atolado naquele mangue, naquele calor infernal, sem ter noção do que estavam fazendo ali. No caminho já chama a atenção a quantidade de barcaças que passam absolutamente carregadas de côco ou de casca de côco. 

    
Talvez para um gringo aquilo possa ser pitoresco, mas nós conhecemos côco, sabemos o que se pode fazer com ele e com suas palhas, de modo que o que a guia nos dizia como grande invenção Vietnamita, a gente torcia a boca, e dava um “tunco” de desprezo. Depois comemos em um lugar super simplinho na beira do rio. Foi muito legal. Eles serviram um sopa, que aliás é a abertura de todo cardápio, e depois colocaram na mesa peixe, arroz, pepino e uma folhas brancas que imaginei serem guardanapos. Só que não. Eram papel de arroz comestível. As meninas enrolam nele pedaços do peixe, montinhos de arroz e pepino e nos dá pra comer. Devemos comer com papel e tudo, molhando em um molho de tamarindo. Uma delicia!

A aventura terminou quando, para tomar o barco tivemos que fazer um percurso em uma canoa a remo. Era uma coisa que a gente tinha que entrar devagar, sentar no meio do banco de madeira e não se mexer, sob risco do barco virar. Foi tenso, o calor era sufocante, eu pingava por todos os poros e sonhava com o ar condicionado do ônibus. Eu queria mo-rrer!

  

Chegando a Saigon

Depois de um pernoite  em Dubai, seguimos por mais 7 horas até Ho Chi Minh. Claro que de Dubai não vimos nada, a não ser o aeroporto que um legítimo monumento à ostentação. Por mais ricos que aqueles xeiques sejam, aquilo lá é pra ostentar mesmo. Um horror enorme de aço, espelhos, pé direito altíssimo e mal gosto. Você olha prum lado tem uma água escorrendo de uma parece, que eles querem fazer parecer uma cascata, olha pro outro tem uma “floresta” de árvores artificiais. Gente, o que é aquilo. O cara que me atendeu na imigração tinha um relógio que eu por pouco não pedi pra tirar uma foto. Uma chapuleta enorme, dourada e rosa (juro!) que se via a metros de distância. Enfim, mais uma cidade marcada pra nunca voltar.

Chegamos a Ho (ou eu chamo Ho ou Saigon, porque o nome todo cansa. Acho que Ho cria uma certa intimidade), 8 horas da noite, mas os trâmites para conseguir o visto fez com que só chegássemos no hotel as 10. No percurso de meia hora do aeroporto ao hotel já fui me enamorando de Ho. Uma cidade normal, com gente nas ruas, um número absolutamente impressionante de motos, lojas de flores vizinho a consertos de motos, enfim, depois do artificialismo de Dubai, nada como reencontrar a naturalidade das coisas. O nosso hotel (New World Hotel) fica em frente a uma praça simpaticíssima é que Dete logo identificou como uma cidade muito parecida com João Pessoa, mas com coisas muito peculiares, como preparar a comida no meio da calçada. É estranho, pra dizer o mínimo.

  
Por onde passamos as bandeiras do Partido Comunista e do país (aquela bandeira linda, vermelha com um estrela amarela no centro) estavam em toda parte. Alguns cartazes são bem naquele estilo do realismo socialista que se via no antiga URSS. Pena que a gente não consiga entender nada do que está escrito. 

  
E fomos fazer câmbio de moeda. Trocamos 100 dólares por 2.226.000 dongs, a moeda local. É isso mesmo que você está lendo. Dois milhões e tanto. Os preços das coisas têm tanto zero, que eu fico maluquinha. Até porque só sei dizer em inglês até mil. Fomos comprar um troço lá e a moça disse “Two hundred thousand”, e quem disse que eu sabia o que era?

Bom, depois conto de nosso passeio de barco pelo rio Merkong.