Morar sozinha em Nova York

A decisão de morar no meu próprio canto nesse período em Nova York, teve, também, a intenção de mexer um pouco com minha acomodação doméstica. Cuidar da limpeza da roupa, preparar a própria comida, fazer faxina na casa, são coisas que no nosso país, na maioria das vezes a gente delega a outra pessoa. A gente até vai prá cozinha e limpa a casa vez ou outra, mas quando isso tem que ser feito como rotina, a coisa é desafiadora. Principalmente para uma pessoa, digamos, senior, como eu. Por mais que as costas doessem, nada foi mais gratificante que a sensação de liberdade, de mandar nos seus próprios horários e desconstruir os próprios hábitos. Algumas coisas tive que aprender quase do zero e vou contar aqui prá vocês.

Fazer faxina

A maioria dos apartamentos, sobretudo nos prédios mais antigos, não tem área de serviço, logo, não tem onde se estender roupa. Limpar o banheiro jogando um desinfetante diluído em um balde d’agua, passar um escovão e depois um pano de chão pra secar: isso era o que eu entendia de limpar o chão do banheiro. Mas, como fazer se o chão não tem ralo pra escorrer a agua e não existe pano de chão porque não tem onde coloca-los pra secar?

Quando cheguei no meu apartamento havia um deposito repleto de produtos de limpeza, dos quais eu só conhecia o Pinho Sol. Obviamente não tinha pano de chão, mas tinha uns lencinhos úmidos e uns secos, que eu fiquei olhando por longo tempo, tentando entender pra que serviriam. E não havia vassouras. Precisei da ajuda de Thaisa pra começar a pensar em como limpar as coisas. Então é assim: tem um produto pra limpar cozinha e outro pra banheiro, tem um pra limpar torneiras e outro pra limpar fogão, tem um pra banheira e outro pra tirar cheiro de suor dos sofás. Viram como não é simples? E as toalhinhas que parecem um perflex grosso? São para limpar o chão! Se coloca em uma espécie de rodo largo e se limpa o chão. Complicado, viu? E haja dor nos quartos depois!

Comprar comida

Sem problemas, os supermercados são parecidos com os nossos, a não ser pela maior quantidade e variedade de produtos. Mas a arrumação é muito semelhante. Problema seriíssimo: subir 3 lances de escada com muitas sacolas pesadas. Logo aprendi que não dá prá fazer compras pro mês, nem mesmo pra semana. Tem que se sair do supermercado com, no máximo, duas sacolas leves.

Existem muitas feiras livres de produtos orgânicos. Perto de casa, na Praça Grand Army, na entrada do Prospect Park, aos sábados, tem uma ótima.  São feiras onde o próprio produtor trás seus produtos pra vender. Por isso são feiras com frutas e verduras da época, pães de fabricação caseira, queijos, embutidos, mel. Comprei um quirche numa barraca de massas, de comer de joelhos.

Lavar roupa

No meu apartamento não tinha maquina de lavar e secar. E ai tive que me virar. Existem aquelas “laundry”, onde se compra fichas e se maneja as maquinas. Você tem que levar seu sabão, seu amaciante, comprar a fichar, botar pra lavar, esperar, botar pra secar, esperar, dobrar a roupa e pronto. Bom, são serviços que já existem há muito por aqui. Eu não tinha nenhuma dessas por perto, mas tinha pertinho uma loja de um chinês mal humorado, que cobrava por peso, lavava e dobrava a roupa e entregava no mesmo dia. Levava roupa de cama, toalhas, panos de prato, jeans. E nunca paguei mais do que 10 dólares. Roupas mais delicadas e camisetas, lavava em casa usando uma estratégia de secagem que achei que era invenção minha, mas depois soube que todo mundo faz isso: um varal de chão na banheira do banheiro. Como o clima estava bastante seco, eu lavava de tarde, no outro dia de manhã já estava seco. E também acabei com essa besteira de roupa passada. Pendurava as malhas ainda molhadas e deixava escorrer. Secavam lisinhas.

Lavar prato

Para mim não existe nada mais pavoroso numa casa do que terminar de fazer uma refeição, tomando um calicezinho de vinho e depois ir pra pia lavar louça. Quebra todo o prazer. Acho um serviço sem fim. Me sinto a própria Sífiso. Mas, graças aos deuses, na minha casa tinha o que eu considero o maior invento doméstico: uma máquina de lavar pratos! Era uma máquina grande, de modo que eu juntava dois ou três dias de louça e botava pra rodar. Já as panelas… ai não tem jeito, é na bucha mesmo.

E assim foi. E foi ótimo. Felizmente não sou daquelas pessoas obsessivas por limpeza, que fica passando o dedo nos móveis. Ai não foi tão mortal. A dor nas costas? Resolvi com 400mg de ibuprofeno a cada faxina.

NY: coisas que vou vendo pelo caminho

Gosto de observar as pessoas. Não do jeito que as pessoas acham que uma psiquiatra observaria, “analisando” (quem da área “psi” nunca ouviu isso?), mas prestando atenção nos gestos, nos hábitos, e, confesso, criando histórias pra elas. E quando a gente está batendo perna pelo mundo, sozinha, em lugares com hábitos e costumes às vezes tão diferentes dos nossos, ai eu me “esbaldo”. E ai vou vendo coisas interessantes, que me agradam, que me dão nos nervos, que me fazem sentir inveja. Vou contar algumas pra vocês.

1.Cuidando do que é seu

Por esses lugares que ando, aqui na minha vizinhança, não vejo muito a interferência do poder municipal na ruas. Mas o povo cuida. Nos canteiros das árvores das ruas sempre há flores plantadas. Várias vezes vi senhoras com uma pazinha de jardim cavando o chão e plantando alguma coisa. E protegem as plantas, põem cerquinhas ao redor, põem placas pedindo que não deixem os cachorros fazerem xixi ali. Quando as pessoas moram no terreo, cuidam para que haja vasos com flores nos prédios, banquinhos de madeira. Os terrenos baldios são transformados em jardins público ou em hortas comunitárias. Nesse caso creio que é alguma ONG, porque vejo sempre placas indicativas. São ações individuais ou coletivas invejável, porque nosso hábito é esperar que a Prefeitura arrume as coisas.

2. Coisas sem utilidade pra mim pode ser útil pra outro

Super comum passar pelas ruas e encontrar coisas encostadas no muro ou na escada do prédio. São livros, sapatos, brinquedos, roupas e até coisas grandes como móveis e colchões. Quem quiser pode pegar. Alguns põem post it com carinhas risonhas dizendo “free”. Quem já viveu em outros países sabe que isso também é comum por lá. Mas, quando não se põe prá fora itens isolados, se faz venda de garagem na calçada mesmo. Outro dia passei por uma, tinha um espelho lindo. Pena que era muito grande. E também já vi um “shopping rua”, como dizia um amigo meu. O cara coloca um pano no chão e sobre ele um monte de quinquilharia, de revistas de quadrinhos a pratos. E vende.

20160626_132625-1

3. Os cachorros

O que é que acontecesse com os cachorros daqui, gente? São educados, não saem puxando os donos, não correm pra encontrar outros cachorros, não saem cheirando as pessoas e, sobretudo, não fazem xixi na rua!!! Acho que vou trazer os meus pra fazer um estágio por aqui. Chegam a ser mais educados do que as crianças! Outro dia, por exemplo, eu estava tomando um sorvete por aqui por perto e observei: uma mãe chegava na sorveteria com duas crianças, que logo correram, passando na frente de todo mundo, pra escolher o sabor. Enquanto isso, uma senhora passa com um poodle grande e, ao entrar em uma loja de comida, se vira e diz alguma coisa pra ele. Calmamente coloca a guia num banco que tinha na entrada (não amarra!). Ele se deita e fica olhando pra dentro, esperando mansamente ela voltar. Tenho inveja, confesso.

4. O mais útil acessório de um carro: a buzina

É de dar nos nervos. Um carro não sai imediatamente após o sinal abrir, o de trás mete a mão na buzina; um carro vez uma manobra pra estacionar mais lento, os que vem metem a mão na buzina. É irritaaaaaaannnnte!!!! Eu que não uso nunca a buzina do meu carro, nós que fazemos piada com paulista que gosta de buzinar nos túneis, morro de susto cada vez que esses caras fazem isso. E as ambulâncias e bombeiros?  Um completo exagero de sirenes altíssimas e sem parar. Sei não, viu…

Falando em carro, olha que interessante esse protetores que eles colocam no parachoque e ao redor da placa. É que, como os edifícios raramente tem garagem, a norma é estacionar na rua. E assim protege-se os carros na hora de estacionar.

 

5. Com fios nos ouvidos

A primeira vez que vim por aqui, me impressionou o número de pessoas andando na rua com um copo de café na mão. Não era levando pra algum lugar, era tomando em pequenos goles. Pois agora a moda é andar conversando ao telefone. A primeira vez que notei foi quando uma senhora, na hora de passar por mim, falou alguma coisa. Ora, só tinha eu e ela na calçada, ela só podia estar falando comigo. Ai eu, “excuse me?” E ela passou por mim, continuando o papo dela. Claro que fiquei morta de vergonha e dai comecei a observar como isso era frequente por aqui. As babás que passeiam com as crianças no parque, a moça dos correios, os trabalhadores das obras (muitos conversando em espanhol), enfim, chega a ser engraçado quando, de longe, a gente vê o povo falando sozinho.

 

NY: Museu de História Natural

Já tinha visto o Museu de História Natural Americano em pelo menos dois filmes e, de todas as vezes que aqui estive, nunca o havia visitado. Parecia interessante e, pensei, poderia acrescentar mais informação a quem adora assistir o Discovery Channel. E fui.

E, olhe, a menos que você adore 347 crianças ao seu redor, correndo, falando, em grupos escolares, com mães querendo tirar fotos e o menino não parando quieto, ouça um bom conselho que lhe dou de graça: não vá! Mais uma vez ressalvo que isso ocorreu comigo, em um dia específico. Vai que tem dias que o Museu é a maior paz e vocês vão dizer que eu exagero. Mas, para quem já se sente incomodada de querer ver um quadro num museu e ter um guia parado em frente, dando explicações sussurradas ao seu grupo, menino correndo e gritando é muito demais pro meu gosto.

Tirando isso, o Museu é interessante. Bastante didático, é mesmo indicado para quem está se iniciando nas descobertas das Ciências ditas Naturais. Tem salas de geologia, de vida marinha, de grandes mamíferos, de aves, do espaço, enfim, tudo que uma professora de ciências adoraria para mostrar aos alunos. Mas não passa muito disso. Ou seja, para quem assiste o Discovery, nenhuma novidade.

Além de didático, o Museu tem belos dioramas de animais americanos, de animais pré-históricos, em tamanhos naturais e muito bem organizado.

As salas dos dinossauros é uma coisa impressionante. Tem de tudo. Mas, esperei ver aquela discussão sobre se os dinossauros teriam penas, e não vi nada. Era muita coisa.

Achei muito bonita as salas da vida marinha, com tubarões, baleias e aqueles seres luminosos do mar mais profundo.

Estranhamente eles tem mostras de povos primitivos e animais da America do Norte, da Africa, da Europa, mas nenhum da America do Sul. Considerando a importância da Amazonia, achei uma falha grave. Ou será que não vi? Porque, confesso, com aquele barulho, aquele monte de gente tirando foto, não tive muita paciência não. Dei por visto muito rapidinho e fui embora.

NY: comprinhas realmente baratas

shopping

De repente me vi precisando de um vestidinho. Um vestidinho desses que a gente veste em casa, que vai na padaria, que dá um pulo ali na casa dos meninos. Tipo uns que eu compro na Renner ou na C&A, por coisa de uns 40, 50 reais. Assim, fui atrás de onde poderia comprar e que fosse entre 10 a 15 dólares.

Obviamente me vali de minha assessora para assuntos de mulher: minha nora. Ela me indicou a Century 21, a Forever 21 (não sei que número enigmático é esse 21), a Old Navi, que é a terceira numa linha que começa na Banana Republic, passa pela GAP até chegar nela, em ordem decrescente de preço (e de qualidade, claro!).

A Century 21 é a mais conhecida das lojas de baixo custo. É imensa e todo mundo que vem do Brasil sempre dá um pulo lá. Assim, tipo, “já que a gente veio ver o World Trade Center, vamos aproveitar e dar uma olhadinha”. Então, como todo mundo deve saber, ela uma loja de departamentos de roupas, calçados e acessórios que vende ponta de estoque de várias marcas famosas. Maaaas, tem que catar muuuuuito. Tem muita porcaria, muita coisa feia e com preços que nem sempre são os mais baratos do mundo. Então, pra achar meu vestidinho baratinho nem adiantava ir lá.

Vi que tinha uma Old Navi mais ou menos perto daqui de casa (apenas 1 estação de metrô) e fui lá. Como gosto das coisas das irmãs mais caras dela, quem sabe encontrava o que queria. Encontrei muita coisinha bonitinha para uma faixa etária muito abaixo da minha, com preços que não eram exatamente o que eu procurava. Vestidinho de verão, curtinhos (ou seja, não para senhoras belas, recatadas e do lar), por coisa de 20 a 30 dólares. Boas promoções de camisetas e shorts, que não eram para mim. Mas o que mais me chamou atenção foi a bagunça que era a loja. Na frente até que tudo bem, mas quando entrei mais pro fundo, era uma loucura! Roupa misturada, araras fora do lugar, achar alguma coisa exigia uma certa dose de paciência. Mas, se você tiver paciência, é um lugar legal pra roupa barata feminina e masculina.

Nesse mesmo shopping encontrei outras duas lojas barateiras: a Target e a Marshall. Elas são ainda mais barata que a Old Navi. Tem araras com promoções de roupa por 10, 12 dólares, mas é preciso procurar muito, ir de uma em uma para achar alguma coisa legal. E a bagunça é muito maior. Em uma delas vi roupa pelo chão e ninguém se preocupava em pegar e por nos cabides. A Target tem uma sessão plus size que é menos bagunçada e tem coisa legais. Achei que valia a pena, mas meu vestidinho ainda não estava lá.

Minha maior surpresa foi descobrir que a Forever 21 era uma loja barata. Talvez todo mundo já saiba, mas eu me lembro do alarde que foi a inauguração de uma loja da marca em São Paulo, eu achando que era uma coisa assim tipo chic, para jovens de 21 anos!!! Qual o que! A loja é a maior pechincha e tem até uma sessão plus size. Bom, plus size não significa pessoas maduras, claro, tem muita jovem gordinha, mas eu já me sinto melhor vendo roupas que cabem em mim. Fui na Forever 21 daqui do Brooklin, na Fulton St. e encontro a mesma desordem das outras lojas. Encontrei alguns vestidos interessantes, mas quando queria ver outro número não achava porque estava tudo misturado. E lá vou eu pra sessão plus size, que é ótima. Roupas bonitas e, acho, como não vai muita gente, até organizadinha. As roupas estão entre 20 e 40 dólares, mas tem uma variedade boa. E ai, finalmente, encontrei meu vestidinho. Por 15,99 dólares (é um saco isso, mas aqui quase todas as coisas tem esses 99 cents e eles dão o 1 centavo de troco e de repente você está cheia de 1 centavo sem saber o que fazer com eles).

Dias depois, andando por Manhattan, pela 34, entro na Old Navi de lá. E vejo que é mais arrumadinha e tem mais mocinhas para atender a gente. Ainda pretendo ir na Forever 21 da Union Square pra ver se há também diferença com a do Brooklyn. Por que será? Fiquei me perguntando.

Uma outra cadeia de lojas baratinha, dessa vez para sapatos, sandálias e tênis é a Famous Footwear. Tem uma bem grande na 34, mas eu fui na da 14, em Manhattan. As sandálias são horrorosas para o meu gosto, mas os tênis super vale a pena. São tênis de modelos do ano anterior, mas com excelente preço. Comprei um Sneakers lindo por 36,99 dólares.

Bom, fico devendo uma andada pelos brechós, que tem muitos aqui no Brooklyn.

Ah, quer saber os endereços das lojas? Vai no Google!

NY: uma coisa curiosa sobre o Metrô

Quem já esteve por aqui e andou de metrô não sei se prestou atenção que, quando o metrô para na estação, o condutor abre sua janela e aponta. Aponta pra onde? Aponta por que? Eu fiquei morta de curiosidade. Uma vez perguntei isso e me responderam que ele fazia isso para dizer ao outro condutor que estava vivo. Ora! Que história! Pois fui atrás saber e achei uma resposta interessante.

Normalmente o trem é conduzido por dois condutores, um que vai na frente do trem e outro que vai no meio. É o do meio que abre sua janelinha e bota o dedinho pra fora, apontando. A questão é a seguinte: para que o condutor da frente possa abrir as portas, ele tem que ter certeza que todo o trem está na estação, que não ficou uma rabeira ainda dentro do túnel. Nas estações há sempre uma placa com listras brancas e pretas, tipo zebrado, que marca o meio da estação. Logo o condutor do meio deve estar diante dessa placa para ter certeza que o trem está inteiro na estação. Dai ele abre a janela e aponta, para indicar ao condutor da frente que ele pode abrir as portas. Por isso há sempre um intervalo entre o trem parar e as portas de abrirem.

Claro que a tecnologia já poderia ter resolvido esse simples problema, mas parece que se tornou tradição e isso é cumprido à risca. O condutor que não sinalizar é punido seriamente. Olha a faixa zebrada ai abaixo.

20160601_131510

E devo me redimir: hoje passei por uma estação que é um brinco, a Cortlandt St. Ampla, bonita, com paredes decoradas. Acho que é nova. Na verdade acho que eles deram uma arrumada em algumas estações, limpando as paredes e colocando algum tipo de decoração nos azulejos.

NY: fim do curso de inglês

 

IMG_0307

Terminei meu curso de inglês. Com direito a diploma e tudo! Foram 4 semanas intensivas, bastante pesadas, com aulas diárias das 9h:00 às 13h00 e trabalhos de casa pra fazer. Agora posso fazer uma avaliação mais qualificada do curso, mas quero deixar claro que essa é a MINHA impressão do curso feito em Nova York, nesse período. Porque as coisas podem ter sido (ou virem a ser) diferentes para outras pessoas.

A Escola foi a LSI – Language Study International e já contei pra vocês da minha decepção de pensar estar matriculada em um curso para pessoas de mais de 40 anos, e isso não ser verdade, apesar da leitura do site dar essa impressão. Mas a LSI é uma escola bastante organizada, com um pessoal simpaticíssimo, professores (pelo menos as duas que conheci) competentes e interessados no aprendizado dos alunos. As turmas tem no máximo 15 alunos e toda terça-feira ela é renovada, seja pela entrada de alunos novos, seja pela progressão de alunos que estavam em outras turmas. Então, nunca se termina com a turma que se começou.

A escola é credenciada pelo órgão educacional do governo, que exige certos padrões de qualidade e de cuidados com coisas como frequência dos alunos e aplicação de avaliações periódicas. Em uma das minhas semanas estava por lá uma equipe de 3 pessoas, avaliadores do Governo Federal, que, entre outras coisas, assistiram algumas aulas e discretamente nos entrevistaram. A quase totalidade dos alunos tem visto de estudante e pra eles a cobrança ainda é mais rigorosa.

Mas, como professora, não pude deixar de ter um olhar crítico à metodologia de ensino, ao material didático, ao estilo de ensino das professoras. E ai observei uma metodologia muito antiquada. Aulas tipo “cuspe e giz”. Sem um laboratório, quando tínhamos partes de listening na aula, era usado um aparelhozinho de som portátil, daqueles gordinhos, que eles chamam aqui bombox, com um CD. CD!!!! No tempo do pendrive, alguém ainda usa CD? A tecnologia passou longe dali, mesmo as mais antigas. Em cada sala há um aparelho de TV e um computador desktop ligado a ela, mas que não estão com seu uso automatizado pelas professoras, que sempre pediam ajuda aos alunos para fazer funcionar. Mesmo assim, essa TV só foi ligada para nos mostrar imagens de algumas palavras ou eventos que não conhecíamos. Ou seja, não era usado como parte da metodologia ou técnica de ensino. Ah, há um ambiente virtual de aprendizagem. Na verdade um velho e conhecido Moodle. Nas vezes que entrei, a página da nossa turma não estava atualizada. Além do que não fomos estimulados a usa-lo. Acho que as professoras também não sabiam como a coisa funciona.

O livro didático é interessante, bastante parecido com o que usei no meu tempo de Yazigi. O problema é que as professoras o seguem fielmente. Quer dizer, não sei se é realmente um problema, mas se eu fosse a professora (hehehehehe), traria informação adicional ao livro, com outros textos, com exemplos de videos, com músicas. Fiquei com a impressão que há um roteiro a seguir e não se pode muito fugir dele, mesmo que isso fizesse as aulas ficarem mais interessantes.

Não sei se essa forma de funcionar é a que tem que ser, não sei se o fato de ter uma turma 90% de gente jovem exige uma metodologia mais formal, não sei se é assim em todas as LSI, mas para mim esse é um ponto bastante negativo. A pessoa estar nos Estados Unidos, e não usar as novas tecnologias de ensino, acho lamentável. E coloquei isso na avaliação final que eles me pediram.

Mesmo assim, digo que terminei o curso com saudade. Pelo acolhimento do pessoal, pelos frágeis vínculos que a gente cria com os colegas. Como eu era, obviamente, a mais velha da turma, aposentada, sem nenhuma ânsia de ser a melhor, eles me achavam interessante ou, talvez, curiosa. Uma senhora de mais de 60 anos, mas com os cabelos vermelhos, as roupas na moda e falando de cultura pop, era realmente para ser alvo de curiosidade.

E foi assim. Melhorei meu inglês? Digo que me sinto mais confiante e já consigo entender melhor o que me falam. E que o ano que entra venho de novo!

Agora tenho mais 1 mês para turistar pela cidade. Mil planos. Conto depois pra vocês.

NY: o metrô de Nova York e seus tipos

Nova York é uma cidade vibrante, multicultural, com parques belíssimos, tudo de mais avançado em cultura, moda, gastronomia. Tem paisagens bonitas e bairros super simpáticos, como o que eu moro. É um imenso prazer andar por suas ruas ouvindo os mais diversos idiomas, vendo os mais diversos tipos. Mas, me desculpem, no conjunto da obra Nova York não é exatamente uma cidade bonita. Acho que carrego um viés complicado, porque depois do Rio de Janeiro é difícil achar outra cidade grande, bonita. Tampouco ela é feia, como achei Dubai e Bangkok. Mas, se tem uma coisa que é realmente feio em NYC é o metro.

Desde a primeira vez que estive aqui, que isso me surpreendeu. Contei aqui: https://veralu.wordpress.com/2008/09/16/o-metro-de-nova-iorque/. Continua me incomodando muito as estações muito estreitas, a sujeira, a falta de acessibilidade. Não é por ser antigo, porque o metro de Paris é até mais velho e tem umas entradas lindas em art deco.

O espaço das estações é quase sempre muito estreito, sem proteção. Se o sujeito se descuidar, cai na linha. E se cair e não morrer vai ser comido por ratos. Juro que vi ratos passeando entre os trilhos, numa sujeita de agua estagnada. Poucas estações possuem acessibilidade, ao contrário, são muuuitas escadas. As estações que estou utilizando agora, nenhuma tem elevador ou escada rolante. E tem mais um complicador: se você errar a direção – ao invés de uptown, você pegar a direção downtown, por exemplo – em algumas estações você vai ter que descer do trem, sair da estação e entrar de novo pelo outro lado, pagando nova passagem. Para quem está viajando liso, isso não é bom.

metro2metro1

Maaaas, o metro de Nova York tem duas coisas ótimas. O primeiro é ter linha pra todo canto que você quiser ir e a todo hora. E se anda tanto de metro que outro dia eu me assustei vendo um ônibus de linha. Achei que nem existia.

A segunda coisa realmente fantástica do metro é porque ele carrega microcosmos da população novaiorquina, com todas as suas peculiaridades, cacoetes e esquisitices. E Nova York tem gente esquisita, viu?

Dessas esquisitices tenho duas pra contar. Estava eu indo pro curso, 8 hs da manhã, entra uma mãe com duas filhas, uma de uns 10 anos e outra de uns 7. A mais nova, lourinha de cabelos compridos, com um casaco de moletom com o capuz puxado cobrindo a cabeça, senta-se no banco em frente ao meu. E começa a me encarar. Não desgruda em nenhum momento os grandes olhos verde água de mim, com uma cara muito séria. Eu olho, rio, e ela lá séria, me encarando. Chega na estação dela, ela levanta me encarando ainda, segue até a porta me encarando, sem nem pestanejar. Cara, tive medo! Sabe aqueles filmes de terror que tem criança do mal, bonitinha mas do mal? Pois foi o que eu pensei. Vade!

Ai, outro dia, entro no meu trem e dou de cara com um ser. Um ser. Creio que humano, mas não tenho certeza. O ser era absolutamente branco, supreendentemente magro, mas magro mesmo, um nariz de águia e uns cabelos ralos meio comprido, tipo fiapos, e… verde! Vestia uma camisa xadrez vermelha e branca e umas calças extremamente justas e curtas, mostrando os calcanhares. Gente! Fiquei, obviamente, olhando (apesar de mais ninguém no trem olhar, o que é bem novaiorquino) e tentando descobrir o que era aquilo. Vontade enorme de sacar o telefone e tirar uma foto, mas fiquei intimidada. Confesso que fiquei sem saber o que era, mas desconfio que era um ET.

Uma outra característica do metro de NYC é que os condutores em todas as paradas falam coisas. Você não entende nada, mas eles falam. Segundo Daniel, você pode se considerar com um excelente inglês, quando você consegue entender o que esses caras falam. Agora, imagine quando junta uns caras falando complicado e uma idiota que ainda está no intermediate!  Estava voltando pra casa e de repente o cara começou a falar algo. Eu só entendia o “ladies and gentleman“. E ele repetiu, e repetiu, dizia “once more time, ladies and gentleman” bla bla bla. Não entendi nada! Eu via algumas pessoas saindo às pressas do trem, mas não sabia porque. Quando foi chegando perto da minha estação me levantei, toda boçal. E o trem passou direto. Era essa a noticia que ele tanto repetiu.

 

NY: e segue o curso

 

Essa semana ocorreram mudanças no nosso curso. Mudamos de sala, de professora e de livro. Não que eu tenha saído do intermediate (a sina!), mas trabalhávamos com livros de um inglês britânico e agora estamos com o inglês americano. Todas as professoras estavam exultante com essa troca, que ia ser muito melhor, que nós íamos perceber como o livro era bom. E os alunos também assim, tipo, “oh, que maravilha”, mas eu acho que era só onda porque eu confesso que não vi nenhuma diferença.

A mudança de professora foi interessante. Nos informaram que esse tipo de rodízio faz parte da política da escola, que é importante que a gente experimente outros estilos de ensinar, etc, etc. Não sei, porque não vi outras turmas mudarem, mas para mim não teve o menor problema, afinal meu objetivo não é me tornar fluente e sim conseguir me comunicar (já ia dizendo, continuar no intermediate).

No fim está sendo muito interessante. Saímos de uma professora que me lembrava muito os personagens de Wood Allen, para uma que me lembra os filmes dos anos 50. A primeira tinha aquele modo inquieto e gaguejante de falar, cheia de ahn, uhn. Meio desengonçada, anda sempre com um copo de café (sim, café não é em xícara, é em copo aqui) na mão e umas roupas tipo Annie Hall. A segunda parece com Doris Day, só que velha. Baixinha, toda rechonchudinha, rostinho redondo, bochechas coradas, cabelo bem louro e arrumadinho. Se veste com estilo mais antigo, mas não vintage, antigo mesmo e parece ser uma “bela, recatada e do lar”, se é que me entendem. Fala com uma voz meio estridente e, com certeza foi namorada do melhor jogador de futebol da escola. Ah, e os exemplos que dá quase sempre inclui “my husband” (dela!). Uma gracinha. Eu fico rindo por dentro, porque não tenho com quem comentar. Virei pro meu colega e perguntei se ele não achava ela parecida com Doris Day e ele “who???“. Essa juventude que nunca viu Doris Day e Rock Hudson não está com nada.

A nossa Doris Day é bem professora primária no seu método. Escreve tudo no quadro, fala pausado, dá carão, faz chamada e cobra rigorosamente o horário de chegada. Como eu sempre fui obsessiva com horário, isso não me preocupa. A maior parte das vezes sou a primeira a chegar. Sou uma “early bird“, como disse uma das professoras.

Mas, enfim, o curso segue muito legal. Creio que estou melhorando bastante meu inglês e que está super valendo a pena. Vamos ver se dessa vez eu avanço pelo menos para um “upper intermediate

NY: meu encontro com Obama

Domingo passado foi a colação de grau de minha nora. Ela terminou o doutorado, defendeu tese no começo do ano, mas a tradição universitária aqui é que haja uma colação de grau única, reunindo todos os alunos, de todos os cursos, de todos os níveis. Imaginem a quantidade de gente. Como professora, fiquei super curiosa pra ver como era que isso funcionava, mas o que me motivou mesmo a ir (e que também motivou meu filho e minha nora) foi a presença de Barak Obama na solenidade. Todo ano ele escolhe, dentre o monte de convite de Universidades, apenas uma para ir. E esse ano foi a Rutgers University, uma Universidade pública, em New Jersey. Apesar de pública, a Rutgers é paga. E cara. E nós, com as nossas públicas e gratuitas, heim?

O evento ocorreu no estádio de futebol deles, que me pareceu menor que o do nosso futebol. Pois, acreditem-me, estava absolutamente lotado. Os alunos ocuparam lugares no que seria o gramado e as famílias, as arquibancadas.

rutgers

A entrada nesse local foi uma onda. De antemão eles avisaram aos alunos que não se podia levar bolsa, por menor que fosse. O que se tivesse que levar, se levaria nos bolsos ou nas mãos mesmo. Era indispensável uma identificação com foto. Os lugares dos familiares era marcado e o controle de entrada foi semelhante ao dos aeroportos, com o FBI revistando o que levávamos nas mãos. Claro que tudo isso era pela presença do presidente.

Uma meia hora antes do inicio da cerimônia, começou a passar sobre nossas cabeças uns 3 tipos de helicópteros. E a cada um todo mundo se virava e aplaudia imaginando que o presidente estaria ali.

A solenidade em si foi interessante porque foi relativamente curta. Primeiro  os professores, com as vestes talares de seus cursos ou escolas, “desfilaram” no meio dos estudantes e depois sentaram em umas arquibancadas reservadas pra eles. Alguns deles ocuparam cadeiras no palco, não sei por qual critérios, talvez os decanos. Depois o Reitor deu as boas vindas, num discurso curto e bem dirigido ao estudantes. Foram conferidos três títulos de doctor honoris causa e em seguida chegou Obama. A galera foi à loucura. Todo mundo de pé, aplaudindo. Muito bonito o respeito que se tem pelo presidente nesse país. Impossível não lembrar da nossa grosseria e má educação no trato com nossos presidentes, ao ponto de em uma solenidade gritarmos palavrões. Imaginei que se isso acontecesse aqui, imediatamente uns 3 “armários” do FBI pulariam em cima do idiota.

obama

Obama falou por mais de uma hora e em nenhum momento as pessoas demonstraram desrespeito. Claro que perdi muito do que ele falou, mas vê-lo só consolidou a minha impressão de um homem bastante carismático, inteligente, com uma excelente performance como orador para grandes platéias.

O interessante do seu discurso foi que em nenhum momento ele fez algo tipo dizer como suas gestões foram maravilhosas, como ele melhorou as coisas. Ele mostrou isso de forma indireta, num discurso cheio de humor e referencias a coisas tipicamente americanas.

O cara é muito bom. Não é porque ele comanda o “Império” que eu vou deixar de admira-lo.

E enquanto o homem falava eu observava as pessoas que estavam por perto. A Rutgers me pareceu uma Universidade bastante multicultural. Vi muitos negros, muitos asiáticos, muitos latinos. A política da própria Universidade privilegia essa diversidade, o que é bastante interessante em país tão diverso.

Agora pensem essa multidão deixando o estádio ao final da solenidade! Que loucura! Creio que passamos umas boas 2 horas entre sair do estádio e deixar o campus da Universidade.

NY: primeira semana do curso

Hoje terminei a primeira semana do meu curso de inglês, apesar de ser uma segunda-feira, e o que se espera é que as coisas terminem numa sexta. Mas, como temos avaliação cada segunda, considero que a prova que fiz hoje corresponde ao fim da primeira semana.

E como está sendo? Está sendo ótimo!

Como era de se esperar fui incluída em uma turma do nível intermediate. De novo. Lembram do filme O Anjo Exterminador, de Bruñuel? Que as pessoas não conseguiam sair da sala? Pois assim estou eu com meus cursos de inglês: não consigo sair do intermediate. Porque sempre que termino esse nível, largo o curso e quando volto, volto pro… intermediate. Mas, tudo bem, um dia supero esse “trauma”.

Minha turma é verdadeiramente multicultural. Tem 6 japoneses, 4 turcos, 1 colombiana, 1 argelino, 1 francesa, 1 saudita e 1 brasileira, eu. Como eu já disse, não existe curso para pessoas com mais de 40 anos, então fui colocada na turma das crianças. A maioria tem em torno de 20 anos, um ou outro com 25, 26 e nenhum com mais de 30. Afora eu, a anciã. Mas tenho me dado bem com a galerinha porque me trouxe de volta o tempo em que era professora e meu povo tinha essa idade. De qualquer maneira eles ainda me olham com uma certa condescendência e tentam me ajudar, tipo escoteiro quando precisa fazer a boa ação do dia. Eu nem ligo e rio por dentro.

O curso é legal. Com metodologia não muito diferente do que eu já tinha experimentado em cursos no Brasil; o material didático muito parecido com o que usei no Yazigi. Gramática, com os malditos tempos de verbo, conversação (ainda bastante tosca e gaguejante) e o maldito de todos os malditos, o listening, escutar e entender o que o povo fala. Mas eu também vou superar isso.

Oficialmente sou estudante nos EUA, com carteirinha e tudo. Posso pagar meia nos cinemas, nas entradas de museu, nos espetáculos de teatro.

lsi

O problema é que o horário do curso não é moleza. Começamos às 9:10 da manhã e vamos até as 12:50, com um intervalo de 15 minutos. Além disso temos tarefa de casa (dever de casa!!!!) todos os dias. O segundo problema é que, quando eu tiver tempo para passear (depois que terminar o curso), a carteira terá expirado. Mas achei legal ter essa carteirinha, até porque fiquei ótima no retrato hehehehehehe.

Quanto ao Club 40+, que eu tinha me matriculado, cancelei a matricula depois do primeiro dia. Não achei a proposta interessante. Achei que poderia ser bom ter alguém para me mostrar NYC, me falar de seus aspectos históricos, me apresentar coisas importantes nos museus. Mas a coisa não foi bem assim. Achei desorganizado e inútil. O bom foi que eles devolveram o dinheiro integralmente.

Essa é uma tomada da sala de entrada da escola. Bonita, nova e com uma vista linda, como já mostrei.

lsi2

Em casa, vou levando. Lavando roupa, cozinhando e limpando. Encontrei um monte de material de limpeza, mas, afora um Pinho Sol, não tinha ideia qual servia para o que. Precisei da assessoria de minha nora para me explicar o que era e como usar. É estranho para nós, mas aqui não se usa vassoura nem pano de chão. Você passa uma espécie de pano absorvente no piso, com um determinado produto quando for cozinha, outro produto quando for taco da sala, e por ai vai. De qualquer maneira a cozinha já deixou as marcas características de uma cozinheira fora de forma.

thumb_IMG_0304_1024

Comprei umas costelinhas e convidei meu filho e nora pra jantar. Minha idéia era faze-las no forno, mas na hora, cade que não tinha uma travessa?! Vamos fazer fritas, então. Comecei a fritar e começou a, logicamente, fumaçar. E a fumaçar, e a fumaçar. E ai dispara o detector de fumaça do apartamento, apitando num barulhão enorme dentro de casa. Corremos pra abrir as janelas, abanar o detector. Um estresse. Felizmente os meninos já sabiam como agir em casos assim. Se eu estivesse sozinha ia ficar doidinha.